NOTAS DE VIAGEM
Uma nova banda
Na viagem a Morretes surgiuuma nova banda indie: Los Taraditos. Seu primeiro álbum é "O vagao da safadeza". Falta compor as músicas. Ficar deitado perto do rio Nhundiquara nao deu inspiraçao. A inspiraçao devia estar ocupada digerindo barreado. É possível que um dos quatro que desceram o trem Serra Verde vire serial killer de guias turísticos. Sério mesmo, nao sei como a classe econômica pode ser mais barata se nela a viagem vem com o bônus do silêncio... A Kelly, ou melhor, a ausência da Kelly, dá mais saudade na gente que a gente imagina...
Água
Acho que as Cataratas do Iguaçu sao o tipo de coisa que nao adianta nada comentar. Qualquer comentário vai parecer narraçao cafona de desfile de fantasias. Cabe dizer que o ar condicionado gelou o vinho, mas eu nao consegui abrir a garrafa porque nao tinha saca-rolha. O Carlos pegou uma borboleta na mao, mas várias outras sentaram no cabelo dele. A gente ficou muito molhado perto da Garganta do Diabo. O lagarto branco e preto assustou o Carlos. Ficmos com vontade de nadar num poço, mas tinha perigo de cair lá embaixo. A primeira exclamaçao do Carlos foi pro fato de que o arco-íris estava lá embaixo. E eu fiquei com inveja dele porque foi a minha terceira vez nas Cataratas, e eu queria que fosse a primeira. Mas é muito bom ir de novo às Cataratas se você leva uma pessoa que nunca foi antes.
De lá de cima
Os Andes parecem que estao cobertos com creme de leite. Parecem que estao se mexendo também.
De pertinho, embaixo
Lua cheia e o ônibus vai passando entre as montanhas, em direçao à Argentina. Um frio. Um monte de sobras nas rochas. Acho até que antes de entrar nessa estrada a gente devia pedir desculpas por incomodar uma coisa tao séria que nem os Andes.
Variaçao Lingüística - Episódio 1
- ¿Güere güere aro were? - Xê. - ¿Wanwo ere? - Güeroerocientoh peho.
E daí o menino saiu do diálogo com um maço de Free.
Variaçao Lingüística - Episódio 2
- Güero etcho goro sin polvo pero tchotcho, ¿eh? - Sí, sí, claro! (risas)
Tudo bem nao entender o que os chilenos falam, mas passar por mal educado que nao ri das piadas do taxista simpático, nunca!
Valpo y Viña
Eu gostei mais de Valparaíso que de Viña, apesar de ser um lugar super bonito também. Mas Valpo tem aquelas casas coloridas com jardins com as maiores rosas do mundo, todas uma em cima da outra. Viña é bonita demais (no sentido de excesso, nao de uau ¡demais!) e tinha muito menos gente na rua. É que tavam todos no shopping.
"El pueblito se llama Las Condes..."
Quando eu fiz Espanhol I, a professora deu uma música que foi composta em algum momento do século XX. Era "Si vas para Chile", e tinha o verso acima. Quando a gente estava em Las Condes, pensei como devia ser aquilo na época da música, e que pela arquitetura Wisteria Lane dos novos empreendimentos imobiliários, devia ser muito diferente nao faz muito tempo. Tem um monte pedregoso e bonio, como dizia a cançao, e até alguns salgueiros na rua, que no lloravan no lloravan porque no llovía e porque la region tiene el aire demasiado contaminado. Hoja a música ficaria "al frente hay un mall que llena de gente", em vez de "al frente hay un sauce que llora, que llora".
Las Condes nao lembra a música, coitada. Lembra meu medo de que o mundo todo fique parecido com os EUA de filme de High School por conta da falta de imaginaçao dos arquitetos. Eu acho casa com cerquinha branca um horror. Tomara que os arquitetos de empreendedora acordem antes que seja tarde. Coitada de Las Condes...
Los Chascones
Eu coleciono gatos e o Carlos coleciona pingentes de pedras. Além disso eu coleciono postais, pins de missao, tranqueira de viagem e gosto de comprar ceramica local. O Carlos gosta também, e gosta de coisas que se penduram em fios. A gente tem muito cacareco. O Pablo Neruda também. E eu sou descabelado, que enm a mulher dele (daí La Chascona para ela e para a casa de Neruda em Santiago). O Neruda tinha obsessao por barcos. Eu tenho por trens. Ele era diplomata que nem eu. Só que ele era um gênio e eu nao, e aí acaba o bem estar que me deu visitar duas das três casas de Neruda...
Queria fazer minha própria casa também, mas qual é o estímulo pra comprar um terreno no cerradao, onde em se plantando nada dá, e longe das minhas coisas favoritas na vida? Eu quero que a capital volte pro Rio de Janeiro. JÁ!
Leituras
Terminei o Plata Quemada de Ricargo Piglia no aeroporto de Ezeiza, esperando aviao pra Santiago. Muito bom, mas agora agora estou com preguiça de dizer por que. Mas é da família do Truman Capote, e dos livros-com-crime da Argentina. Muito muito muito bom e bem feito. E tem filme pra ver as diferenças, deve valer a pena, já que o autor fez o roteiro (ou co-fez, nao me lembro). No aeroporto mesmo, comprei La pasión segun Trelew, que é relato sobre a época da Ditadura (a de antes da volta de Perón). Ando gostando de relatos da época da Ditadura, qualquer que ela seja. Faltam umas 40 páginas. Nao é uma maravilha de escrita, mas é legal ver certas ingenuidades de Tomás Eloy Martínez, um de meus autores preferidos. E se pá, acaba virando filme, com aquele menino de Abrazo Partido.
Compras
Eu tenho que confessar que nao gosto de ir às compras. Por exemplo, minhas tentativas em Bogotá foram um fracasso, exceto na livraria. Aqui foi assim, comprei umas quatro garrafas de vinho no Chile, mais umas coisinhas de lápis lázuli, mais dois filmes chilenos que estavam a promoçao e olhe lá. No Paraguai, achei um All Star lindo, e o Carlos comprou os jogos de Play2. E compramos uns perfumes, porque é o que as pessoas compram quando nao sabem o que comprar. A compra que mais gostei de fazer foram umas camisas de linha numa lojinha de artesanato no meio de mil lojas de tranqueira em Ciudad del Este. O Chile é odioso pra fazer compras, porque tudo é horripilantemente caro.
Dodói
Estamos presos no hotel aqui em Mendoza porque o Carlos ficou dodói. Por isso deu tempo de escrever tanto no blog...
Escrito por Hugo Lorenzetti Neto às 20h48
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