CADERNO MENAS
Nikola Tesla discovered that the earth is a conductor of acoustical resonance.
Coffee and Cigarettes é poser. Roqueiros, café cigarros, seedy cafeterias ou coisa que o valha e celebridades que à época eram célebres apenas na Rua Augusta indo pro Centro em relação à Paulista é uma combinação bem poser. Mas é muito bom. O filme me fez ficar com saudade da época em que eu fumava meio maço de Carlton, um raro prazer, por dia, em que eu sabia o que estava acontecendo no mundo do rock... em que eu era, como a Lady MacBicth diz, roquestar. E pra completar o equipamento da pose, o filme é em preto e branco.
O filme é muito bom, além de poser (vamos entender aqui a condição como uma coisa positiva). Tem diálogos geniais e atores que estão nitidamente se divertindo com aquilo. A organização em esquetes curtos ajuda bastante, dá velocidade pro que seria uma interminável conversa de bar - mas sem cerveja. Há momentos verdadeiramente poéticos, como o velho que escuta Mahler no ar, e fecha os olhos (dorme? morre?) depois de recuperar o significado profundo da descoberta de Tesla (feita em alguns esquetes antes). E há ironias ótimas, como Tom Waits dizendo que a beleza de parar de fumar é que a gente pode pegar e fumar um cigarro. Ou Cate Blanchett dizendo a si mesma (no papel de SHelly, a prima), que esse mundo é mesmo invertido, porque certas coisas são caríssimas, mas quando a gente tem dinheiro pra comprá-las acaba ganhando, não precisa pagar por elas.
Enfim, quem não viu devia ver. E porque eu sou poser, enquanto não me esqueço de fazê-lo, vou brindar com xícara de café, toda vez que estiver tomando umas (cafeínas) com alguém...
Tão atrasado que não volta nunca mais pra casa.
Acabeide ver aqui com o Carlos O ano em que meus pais saíram de férias. Gostei. Fiquei com uma impressão de que era um filme argentino ou chileno falado em português, e isso é um elogio.
A associação eu fiz em parte pelo visual - figurino, luz, cenários - que me lembrou Machuca, e em parte pelo tema, que me lembrou muito Kamchatka, que eu vi com a Letícia no Cine Paradiso há um tempão. O visual ainda me lembrou as cinegrafias hermanas por sua falta de pretensão, de exibicionismo autoral, tipo o "olha que lindo que eu filmo" de Abril Despedaçado. Também achei o filme parecido com coisa argentina e chilena no jeito de contar a história, com metonímias, sugestões, pouca metáfora, e sem também explicar tudo como a bomba Olga. Filme médio, coisa que falta por aqui, que conte bem sua história, que até emocione a gente um pouco, que ajude a gente a se identificar com o menininho... essas coisas normais que justificam o cinema mas que poucos se preocupam em fazer.
Da importância de deixar a lombada pular na sua frente.
Quando acaba a aula do Cervantes eu sempre vou à biblioteca pegar um livro e digo a mim mesmo que vou só levá-lo pra passear. Mentira. Eu li La vaca, de Augusto Monterroso (Guatemala) de cabo a rabo - e descobri que o cara, além de excelente poeta, é um crítico literário sensibilíssimo, com idéias muito interessantes. Mas esse eu escolhi escolhendo: pegava o livro e via de que país é o autor, e esse foi o primeiro centro-amerciano que apareceu.
Legal mesmo foi como eu escolhi Un tranvía en SP. Eu ví o título de longe enquanto procurava um de Vargas Llosa que não me lembro mais qual era, recomendação ali de pé de ouvido de María Hortencia, a professora.Aí achei curioso o SP. E peguei. É um livro de um rapaz (nascido em 1973) basco, Unai Elorriaga. E olha só que maneiro:
El compañero de habitación de Lucas estaba dormido y la silla de las visitas vacía. lucas tenía la impresión de que la silla se estaba riendo de él. la silla era pura maldad. Cuando se fue la enfermera, lucas empezó a hablar con la silla: "Ya verás, va a venir; si no es hoy, el día de San Nicolás, si no es el día de San Nicolás... pero vendrá, y se sentara encima de ti y estaremos hablando hasta la noche, y después de la noche también, y después cogeremos el autobús, a casa". Entonces escuchó un tranvía, de los antiguos.
(...) A mí eso me pasa en el cuarto de baño. Cierro la puerta y tengo recuerdos. Normalmente recuerdos buenos. A veces me echan en cara que estoy demasiadas horas en el baño y que al salir no doy explicaciones. lo que pasa es que los recuerdos no se pueden explicar. Eso es lo que pasa. Y, claro, mi madre se enfada. Seguramente porque está mayor ya, pero no hay que tenérselo en cuenta, no muy en cuenta por lo menos. (...) La cuestión es que suelo entrar mucho al baño, para no tener que escuchar mi madre y para recordar cosas.
Ainda estou no primeiro terço. Estou amando. Depois, se eu me lembrar, falo que foi que achei. E, ah, imagino que SP não tenha nada a ver com São Paulo, mas sim com Shisha Pangma.
Finalmente.
Acabei de comprar Little Earthquakes, da melhor cantora do mundo.É o primeiro dela, e o melhor. Eu não o tinha antes, e o desgraçado andou esgotado algum tempo. Agora eu tenho, eu amo esse CD...
Escrito por Hugo Lorenzetti Neto às 21h59
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|