De Salvador a Brasília, via São Paulo
A demora deve-se ao fato de que a vida recomeçou aqui em Brasília recomeçando. Apesar de essas semanas terem sido relativamente tranqüilas, sobrou trabalho de Direito, de Economia, caça a aula de espanhol no Instituto Cervantes, Carlos e casa pra cuidar (não que eu cuide muito de nada em casa, o que é uma coisa feia e não serve em nada de preparação á vida que eu vou ter se for removido pra Tóquio, onde empregadas estão fora de qualquer orçamento não-Imperial). Enfim, uma trapalhada. Até esqueci de uma boa parte das coisas que aconteceram durante a viagem. Mas tento:
Pra fazer contraponto à uma hora e meia de diversão descomprometida no show do Olodum, quando o Lê, no dia seguinte, me levou pra ver os lugares, ele me contou que uma vez, quando ele estava em um desses lugares cheios de turistas, uma menina de uns 11 anos veio pedir esmola, e quando ele disse que não tinha, ela ofereceu sexo oral em troca de 10 reais. Ele, claro sentiu-se mal, terrivelmente mal. mas a menina ainda pôs as mãos na cintura e desafiou, dizendo que se ele achava que ela não agüentava, que perguntasse a ela quantos homens ela "atendeu" naquele dia... Fiquei de boca aberta até o chão... Que coisa mais larazenta, horrível, monstruosa que é esse mundo... E com isso quase acaba a etapa Salvador. E eu o tempo todo pensando que esses canadenses não sabiam da missa o terço. E estavam lá cooperando socialmente e falando falando falando que nem social-democratas europeus, para quem abrir uma escola e mandar uma celebridade basta. Pode ser que ajude a alguns, mas o buraco é muito mais embaixo, e muito mais fundo.
Visita ao governador (eu do lado de fora) e à Reitoria (eu do lado de fora) e depois eles almoçaram no Trapiche, com a presença de Carlinhos Brown, que ao vivo é muito mais feio do que eu poderia imaginar. E eu do lado de fora do almoço, bien entendu...
Chegamos em São Paulo e já estava tudo pronto. E os batedores da PM paulista são um Cirque du Soleil todo próprio. Parece balé, gestos quase coreografados, e parece que parar o trânsito pra comitiva passar, para eles, é a coisa mais fácil do mundo. E nisso a gente chegou ao Consulado, onde eu fui dispensado pra ir pro hotel ler o livro do Luiz Alfredo Garcia-Roza, que me acompanhou a viagem inteira, e que só consegui acabar depois que a viagem acabou.
Hospedado no Morumbi, já sabia que um táxi até o primeiro lugar mais interessante da capital paulista custaria uns 50 reais, então fui ao shopping pra jantar. E no dia seguinte, fui de novo ao shopping, mas dessa vez pra fuçar nas duas horas livres que tive a Livraria Cultura do Market Place. São Paulo sem São paulo, a coisa mais esquisita do mundo. A mocinha bonitinha vestida de marinheiro disse que a cidade era assustadora. No Morumbi é mesmo, um monstro. Mas eu disse a ela que deve ter alamedas verdes a cidade dos meus amores. Em outras palavras, claro. Nesse dia, que foi o único dia depois da única noite em Sampa, houve uma reunião no Paço das Artes - USP entre artistas discutindo arte e política (fiquei de fora, tentando entrar em contato com os colegas que já estavam no Rio preparando o Pan), e depois o almoço com a Câmara Canadense de Comércio, no próprio hotel. Desse eu participei na mesa mais longe e servida por último, onde conversei com um coleguinha de carreira que está emprestado pra Prefeitura de SP. O Governador Serra cancelou o encontro com Madame la Gouverneur, deixando o COnsulado de cabelo em pé e extremamente magoado, com razão, claro. Mas foi daí que saiu o meu tempo livre pra comprar livros. E depois disso foi caipirinha de despedida no saguão do hotel e avião de novo pra Brasília, etapa da viagem que fica pro próximo post.
A sensação nesse período foi de que tudo estava muito fácil, e estava mesmo. Poucos compromissos em São Paulo para Madame, poucos deslocamentos pela cidade, foi tudo muito mais tranqüilo mesmo. Ali deu pra ter uma idéia de parte do que é fazer o serviço diplomático: enquanto o luxo e a chiqueza que todo mundo imagina que é essa carreira desfila, a gente assiste, pega um copo de laguma coisa e um pedaço de outra pra comer, mas no fundo no fundo o que a gente tá ali pra fazer é carregar caixa. Ou piano, dependendo do cliente. Entendam vocês: não é chique. É tenso e sem glamour nenhum. Mesmo ficando hospedado no Grand Hyatt: você está ali por coincidência, porque é uma pecinha na engrenagem que fica encaixada a dois quartos da Autoridade Suprema porque ela pode querer fazer as unhas às 3 da manhã. Sorte a minha isso não ter acontecido, porque aconteceu com uma amiga que cuidava de pessoas xis, cuja origem não vou divulgar porque é feio fazer isso. Mas o diplig é meio isso, um dos que põe fios nas tomadas e só. Não que eu não tenha me divertido, um pouco a gente se diverte sim. Mas se cansa, fica estressado, e parece que vai precisar de um ano de férias pra se recuperar. E esse ano só vem depois que a gente está a sete palmos.
Mas não convém reclamar. Aqui de volta no Itamaraty e já com reuniões marcadas e temas de educação pra discutir, tudo fica mais interessante. E essa viagem, já apresento a conclusão, serviu pra eu saber que não gosto das funções de Cerimonial. E que eu amo de paixão Cooperação Internacional.
Escrito por Hugo Lorenzetti Neto às 10h11
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