muitoconceito


Bladders of Iron!

O primeiro episódio de hurry up and wait aconteceu logo de cara. Cheguei, morrendo de medo de atrasar, às 8h30 pra uma saída que só aconteceu uma hora depois.  Nisso conversei com uma ou outra pessoa, do Canadá e do Brasil mesmo. Não deu tempo nem de curtir nada no caminho, a não ser a descoberta que entre a escadaria e a igreja que são cenário de "O pagador de promessas" passa uma rua. Eu jurava que era contínuo, tipo escadaria da Penha.

Aí que esse dia era pra andar à pé, mas choveu. E tudo teve de ser replanejado, e o foi, já que os canadenses são horripilantemente bem organizados. Horripilantemente, porque eles planejam tudo e, se uma coisinha só sai do lugar, eles entram em parafuso. E quem saiu do lugar fui eu: eles não contavam que quem parava o comboio era eu, e acabaram não me dizendo nada. Parei no lugar errado duas vezes, tudo com base em suposições próprias de onde eles gostariam de ir. E levei uma bronca da chefe de segurança, a senhora Iceheart (ou coisa parecida). Daí funcionou tudo bem, exceto pelo Rio de Janeiro, o lugar a donde los gringos van para quedar locos.

Ela fez um passeio pela Igreja de São Francisco, a Catedral, a Igreja do Rosário dos Pretos, o Museu Afro-Brasileiro e a Escola de Culinária Senac. Eu pulei o Senac e a Catedral, ambas porque precisava discutir alguma coisa de que não me lembro mais, ora com a Polícia Federal, ora com a Polícia do Exército, que compunha os batedores. Apesar de lindas, passear sozinho é uma coisa, passear na tensão porque estou na presença de uma Chefe de Estado, é outra, muito outra...

O passeio emendou para uma visita ao Gapa, onde eles deixaram uma doação de 50 mil reais, e onde a gente assistiu a apresentação de música e teatro. Perdi o que rolou dentro: a delegação deles tinha umas 70 pessoas, o bastante para lotar qualquer coisa. Ela, a GG, conversou com todo mundo, abraçou todas as crianças, bateu papo com todas elas e, mesmo tendo comido o dia todo, comeu daquilo que o grupo lhe ofereceu, sem desfeita. Fiquei encantado, então. Ela é uma figura interessante, além de muito bonita. Quem quiser mais, clica: GG. Passei a gostar muito de trabalhar com eles, tudo por causa de Madame.

À noite, fomos ao Solar do Unhão, uma construção colonial magnífica, onde fica o MAM/BAhia. Lá houve palestra dada por ela e Monsieur sobre diversidade, cinema, cultura, etc. E tinha um antropólogo baiano que disse que a baianitude da melaninidade do ser ontológico afro-egípcio-pós-escravo é uma condição que exige uma consciência fenomenológica da carnavalização, e por que não dizer também, da anti-descarnavalização nagô. E tome acarajé no coquetel. Acho que comi, ao todo nessa viagem, uns 20 acarajés.

Aí a noite acabou, e eu liguei pro Carlos, escrevi no diário e fui pro ofurô. Morto.

Ressuscitado  no dia seguinte, mais pique: a GG visitou outro programa de que fiquei de fora por falta de espaço, os Pequenos Pintores de Arte Naïf. Diz lá que ela dançou e cantou músicas em créole. Ela é nascida haitiana, deixa eu esclarecer. O Canadá acabou, por causa disso e desse mundo de estereótipos, parecendo um país legalzão: a Governadora Geral é mulher, negra e refugiada.

Almoço, eu fiquei olhando ela andar pelas ruas de longe. Uma coisa meio agente secreto. Ridículo. Mas se eu não estivesse lá, certamente alguma merda aconteceria. É a lei do diplig, além das outras duas que não sei se mencionei: nunca deixar passar um banheiro nem uma boquinha, porque você nunca sabe quando será a próxima. Aprendi isso ficando roxo de fome e descobrindo que tenho bexiga de aço. Muito unglamourous. Extremamente. Acreditem em mim. Quem está de fora acha que diplomata é chique e fino. Diplomata fica pensando o quanto precisava que a autoridade calasse a boca pra ele- o diplomata - poder mijar. Tão sem glamour quanto comissária da Air France, que fala francês, viaja por aí mas recolhe vômito de velho em bolsinhas de plástico.

Ganhei uma tarde livre, no entanto. E aí o Lê, o motorista que me foi designado (não "meu motorista", diplig não tem nada), me levou pra ver a Igreja de Nosso Senhor do Bonfim e o Farol da Barra, além de me ajudar, à noite, a achar um lugar barato pra comer. Na Igreja eu comprei fitinhas, claro. E vi a sala de ex-votos, e chorei, como sempre faço em salas de ex-votos. No farol tem um museu e um malhódromo, que não funciona como tal na hora em que fui lá. E tem um pôr-do-sol maravilhoso, um dos mais lindos que já vi na vida. E no restaurante foi o mais divertido: os preços caíram pra MENOS DA METADE do que estava no cardápio porque o Lê se indignou por mim e disse que era um absurdo eu pagar preço de gringo sendo que estava lá a trabalho.

E com o Lê eu conversei sobre a Bahia e todas as coisas horríveis que acontecem lá. Conversa que fica pra próxima, junto com a narrativa do show do Olodum.



Escrito por Hugo Lorenzetti Neto às 15h20
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Recôncavo e Reconvexo

Cheguei a Salvador e ganhei um chá de cadeira do meu motorista. Aconteceu que eles viram no painel o caos aéreo errado, e eu, coitadinho, estava num avião que milagrosamente saiu na hora.

Hotel. Eu não sabia o que fazer e acabei ligando pra uma pessoa que sabia menos que eu lá entre os canadenses. Até que a pessoa certa, uma diplomata que foi uma professora de cerimonial pra mim, ligou e disse que eu deveria estar lá mais tarde apenas, pra que saíssemos todos em busca da Governadora Geral, carinhosamente referida por todos como GG, e mais cerimoniosamente referida como Madame.

Passeei um pouco, só o suficiente pra encontrar uma loja de cerâmica. Era um ateliê com projeto social, uma coisa linda. Vendiam trabalhos das crianças, uns objetos muito bacanas, com os pequenos erros de início de ceramismo que se pode esperar, mas lindos assim mesmo. Vocês, que são amigos, sabem o quanto eu amo cerâmica, e podem imaginar que gastei todo meu tempo livre nessa loja. E comprei quatro trabalhos pequenininhos, que não quebrariam - nem quebraram - até a chegada ao meio da missão, quando voltaríamos a Brasília e eu ficaria em casa, e não no hotel deles.

Por falar em hotel, o meu quarto tinha ofurô, que eu tive tempo de usar só na primeira noite, já que a GG estava morta de cansada e dormiu cedo.

Saímos para a Base Aérea no fim da tarde, e levou algum tempo até eu entender quem estava fazendo o quê.Mas uns anjos ajudaram, dois anjos, especificamente: um canadense e uma brasileira. Eles me ajudaram a enfiar as pessoas no carro e não fazer Madame esperar. Deu tudo certo, a comitiva saiu sem problema se a noite foi livre pra eu caçar um acarajé bom no Pelourinho (e tinha). Foi a noite do ofurô, também. Nisso deu pra pensar bastante e pra escrever umas linhas no diário que está sendo feito em cima do caderno que a Carol fez pra mim. A canção que dá título ao post ficou na minha cabeça a maior parte do tempo em Salvador, por isso ela está aí, cumprindo sua função.

O caminho entre o aerorporto e o Pelourinho é eloqüente. Há uns arcos de bambus na saída/entrada, uma espécie de abraço, como disse o motorista que foi me buscar. E depois é pobreza atrás de pobreza, além de uma imensa obra de metrô parada, com trechos que acabaram desabando por estarem abandonados. A própria toponímia do aeroporto diz muito: Luiz Eduardo Magalhães, e todos querem, com toda a razão do mundo e mais um pouco, que ele volte a se chamar 2 de julho. E a toponímia macabra continua: tem avenida, praça rua e banheiro público chamado ACM, ou LEM, e tudo o mais que indica a tirania sob que viveu (vive) o Estado da Bahia.

O Pelourinho é bonito como deve ser a primeira capital de uma colônia européia nas Américas: imita a Metrópole, mas os que tem o olho treinado percebem que há outros traços escondidos nas obras de arte sacra e nas arquiteturas monumentais, traços da cultura daqueles que realmente fizeram. Incomodou um pouco ver que os guias param nisso da imitação. Mania de pobre: olha só que bonito e quase igual a gente fez. As pessoas deviam querer ver mais o diverso que o semelhante quando viajam, mas enfim, problema das pessoas.

E também o Pelourinho é pobre. Parece, às vezes, um cenário de casas coloridas, com uma massa de casas arrebentadas e cheias de cortiços por detrás. Nessa parte a gente não passava, e os batedores escoltavam o comboio para longe delas. Só quando eu voltava pro hotel que meu motorista passava por esses pedaços esquecidos pela benevolência de Malvadeza.

Foi minha primeira vez em Salvador, e gostei bastante do que vi no primeiro dia, essas partes da cidade de que estou falando. Fui dormir ansioso, demorei pra pegar no sono. Acordei meia hora antes do despertador. Estava morrendo de calor: lá fazia uma chuva que servia pra ajudar a temperatura a cozinhar a gente. O café da manhã era uma delícia, o melhor da viagem. E do dia dois eu conto depois.



Escrito por Hugo Lorenzetti Neto às 18h03
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Hurry up and wait!

Basicamente foi isso: correr, ficar afobado, perder cabelos aos tufos porque Monsieur pediu ao carro VIP para parar na Linha Vermelha pra ele fotografar alguma coisa e depois de tudo isso esperar, esperar, esperar - geralmente em pé. Essa é a regra, claro, o princípio fundamental da ligação diplomática, e foi formulado como "hurry up and wait" por Jean e Phillipe, meus colegas de espera e correria.

Aí vêm as variações sobre o mesmo tema. Por exemplo: ficar de terno ensopado no Pelourinho porque nem todo mundo entrou nos carros, conhecer o modo como funciona a carreira diplomática no Canadá enquanto os pés fritam no asfalto selvagem carioca ou simplesmente fazer novos quase-amigos, ou amigos de ocasião (no sentido temporal de ocasião), já que não é possível correr e forjar grandes amizades, ainda mais em 9 ou 10 dias.

Foi legal, claro. Foi minha primeira missão com princípio, meio e fim. Minha primeira viagem com PPV (o documento que enfia a gente no avião). E voltei cheio de histórias. Tá certo que não são as histórias mais divertidas para o público em geral, e certamente menos divertidas para o público específico, mas são histórias> Se meus netos forem netos parecidos com o que sou, vão gostar de sentar e ficar ouvindo.

Aí que eu queria contar tudo, mas vou precisar querbrar a história. Senão eu desisto. Ando, aliás, mais compromissado com a escrita ultimamente, mais metódico e constante. E mais exigente. Ando querendo que as coisas mais banais que escrevo - e eu só escrevo banalidades -  saiam bem, ou pelo menos adequadas a seus propósitos. Se for pra fazer meia boca a história, melhor não fazer nada. A experiência foi importante, vocês, amigos, são importantes. Então o texto tem que vir bem.

Metalinguagem besta à parte, estou me sentindo meio transformado pela experiência. Nâo sei se é porque ainda estou cansado e com sono, arrasado pela correria, se é porque andei comendo mal e me desarranjando ou se é porque me transformei mesmo. Mas parece que certas coisas estão mais simples, parecem menos doloridas ou simplesmente mais próximas. Será que ando "mais diplomata"? Ou será que andei descobrindo que ser diplomata não é uma coisa ruim, e que eu vou poder seguir sendo parecido com o que era antes?

Não se conclui antes da premissa. Acho que não cabe muito pensar sobre o onde vou ou a nova situação. Cabe, sim, perceber o momento como a hora em que pus o barquinho na praia  e as primeiras ondas vieram me buscar. Depois chegam os portos.

E chega de imagens e metáforas mal feitas. Daqui a pouco a história começa pra vocês. E enquanto isso, se mais algum capítulo aparecer, vou recolhê-lo no diário e contá-lo depois. É pra contar que a gente vive e faz as coisas. Acho. Por enquanto.



Escrito por Hugo Lorenzetti Neto às 22h58
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