Se eu tivesse de escolher uma coisa só para justificar a vida, eu escolheria seu caráter narrativo. Ela só vale a pena porque dá pra contar pros outros. E se não dá pra contar nada por falta de elenco ou conflito, a gente tem direito a inventar, e quando a invenção vai bem, a publicar. Em outras palavras, acho que não existe nada que valha mais a pena nesse mundo que uma história bem contada, seja ela baseada em fatos reais ou não.
Uma vez veio um embaixador ao Rio Branco que contou histórias de sua carreira. Ele era (é ainda) um cara gordão, risonho e extremamente bem articulado. Na verdade, pensando bem, "bem articulado" foi uma coisa que escrevi aqui de que me arrependo, mas não vou tirar só pra justificar esse parêntese: "bem articulado" não é qualidade de contador de história, ou melhor dizendo, uma pessoa bem articulada não sabe necessariamente envolver seus ouvintes ou leitores num enredo. É preciso dosar os suspenses e saber fazer inflexões. Uma pessoa bem articulada pode ser não mais do que um chato, que nem criança-prodígio da televisão.
O embaixador. Ele contou de casos ótimos, como quando ele foi parado na estrada por adolescentes com fuzis perto de Teerã, e de como ele enganou um outro diplomata que queria que ele reclamasse contra o acontecido. Ele contou também de como ele conseguiu salvar a comunidade brasileira do Paraguai das garras de um policial corrupto. E ele contou mais um monte de coisas, e as duas horas de palestra pareceram dez minutos.
Aliás, é esse o problema da história bem contada: ela faz o tempo voar. De repente a gente já está mais velho, e a história já passou.
Tem os livros. Hoje o Gustavo, meu colega daqui do Instituto Pinel, ops, Rio Branco, trouxe o Equador, e disse que não tinha grandes primores estilísticos, mas a história era bem contada. Acho perfeito. Saber contar é melhor que saber escrever. Agora eu vou emprestar pra ele o Mapas, porque ele me pediu um livro de literatura africana. Eu tinha acabado de ler El Señor Presidente, do Asturias, um da Guatemala. Outra história fantástica. O próximo era pra ser mais um dos que eu trouxe da América Central, mas a fila foi interrompida.
Os romances e livro de conto são a melhor forma da matar aula sem sair da sala. Eles têm sido bons companheiros, pra mim e pra m uitos dos meus colegas.
Tem os filmes. Por exemplo o Café da manhã em Plutão. Uma garoto que se veste de menina, apresenta-se como Patricia Kitten, foge de casa com os roqueiros, e faz tudo o que a gente faria se fosse personagem de livro, o que pode ser melhor que isso como experiência narrativa? E nessa linha tem o Hedwig e o Velvet Goldmine. É impressionante como ficção com roquenrou e travesti – ou quase – podem mexer nas nossas glândulas de apreciação de histórias. A vida de verdade de gente que nem esses deve ser um inferno, mas quando a gente espia pelo buraco da fechadura da câmera ou das páginas, parece que toda o tédio do emprego das 8 às 18, da repetição do tempero da comida do self-service ou do bandejão e das horas esperando o ônibus ou a banda passar se desfazem. Parece possível ter um modo de vida intensamente narrável.
Mas ninguém tem. A narrativa tira o cocô, o fio dental, a espera pelo prato de comida no restaurante, o telefone que toca muito menos do que deveria e tudo o mais que é chato e de que ninguém gosta. Mesmo o mais doido dos doidos, o mais aventureiro dos aventureiros e até eu, com a minha profissão, que vai me dar o direito de morar em 20 países diferentes até o fim da vida e conhecer rapidamente mais uns 40 outros, todos têm que lidar com a chatice cotidiana. O importante é saber limpar os eventos desnecessários na hora de contar. E é até bom ser levemente entediado pra aproveitar melhor as leituras...