som
Tenho uma coleção de vinil. Nada de especial, nem secreto ou anunciável. Na verdade é uma pilha de discos velhos, muitos deles merecedores ou de lixo, por serem inaudíveis, ou de sebo, pra ver se alguém com um gosto terrível para música os compra e se diverte mais que eu. Mas eu queria uma vitrola que os tocasse, porque eu gosto de ouvir aquele som de agulha raspando na poeira microscópica. Música pop, porque faz pop pop pop pop pop na caixa de som, uma vez alguém veio com essa analogia sem graça. O chiado me lembra o tapete azul da sala, e o fato de que eu furei um dos quadradinhos caixa de som que era a tampa da minha vitrolinha ao mesmo tempo, com um gancho de cabide, quando eu morava no The Royal Palm Plaza, antes de me mudar pro bairro do Flamboyant. Nada de especial sobre isso, além da culpa, já que percebi que feio e errado era o que eu estava fazendo justamente enquanto estava fazendo. De repente, um dos quadradinhos estava arrebentado, diferente dos outros. E era o do canto esquerdo, eu me lembro.
Existe um som sem memória de que eu gosto muito, também. É o som de gancho de rede. Não evoca nada, não me faz lembrar de nada. Não provoca reflexões de nenhum tipo. É um som limpo, de que gosto, e só. Como eu gosto do barulho de pneus sobre asfalto molhado, de metrô chegando na estação, da resistência do chuveiro (em especial quando está na posição "inverno"), de espirro de aerossol, de velcro abrindo e de telefone em discagem tom. Não penso em nada, só escuto, e já está bem.
E tem música. Sintetizadores e saxofones me irritam. Adoro violino, especialmente em música pop ou rock, porque fica muito dramático. Percussão também, e quanto mais instrumentos houver, melhor. Mas não gosto de percussão corporal, tipo Barbatuques (no heart feelings, eu não gosto e só).
Engraçado, não sei por que estou escrevendo sobre isso. Talvez seja só pra ouvir o barulho do teclado se misturar com o de aviões (o aeroporto é perto de onde eu moro, 15 reais de táxi, o melhor lugar pra se viver nessa cidade besta).
Escrito por Hugo Lorenzetti Neto às 22h02
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