Antes de dormir
Uma coisa que me ajudou, foi quando meu terapeuta, há alguns anos, me disse que a morte não é um problema de verdade, porque ela é a única coisa realmente fatal. Todos sabem que ela vem, e que a vida é mesmo esse desperdício de expectativas, sonhos, potencialidades, caminhos não tomados e tudo o mais que é muito mais interessante que a vida-ela-mesma. É mesmo um desperdício, porque tem tudo isso e a própria repetição do dia anterior com pequenas modificações e que não é interessante pra ninguém que é tudo jogado fora. Life sucks and then you die. A morte não é um problema, e eu, na época, comecei a parar de surtar. A terapia foi tão boa que hoje, quando sonho que estou morrendo, vou até o fim, sem acordar. Infelizmente, nunca consigo me lembrar do que vem depois, de modo que eu não vou poder revelar aqui os segredos do lado de lá.
Observem a figurinha abaixo:
Se eu estou falando de morte neste post, é possível pensar nas metáforas que são esses corvos, sobre como a morte vem colher a vida, que é um trigo dourado, etc. Ainda mais sabendo que isso aí é Van Gogh, que era doido e se matou. E, pra quem não sabia, algo pra pôr mais lenha no fogo: foi o último que o artista pintou antes de se matar. É quase irresistível a tentação de procurar morte em cada pincelada desse quadro diante desses antecedentes. Eu também adorava pensar assim antes, assim como eu adorava pensar no roquenrou que era o Aleijadinho esculpindo, e no quanto é necessário ser cem por cento pirado pra ser artista. Pensava assim e via esse quadro assim, até ler um texto que só expôs o óbvio: Trigal com corvos é uma composição. Reparem que ele é feito de dois triângulos amarelos e três entre verde e marrom, entrelaçados não simetricamente, mas há ainda relações entre a distribuição das manchas e o eixo de simetria. O movimento dos corvos é orientado. Não há desequilíbrio. Aliás, pintar era quase terapia ocupacional para Van Gogh, que sentia seu mundo se reorganizando enquanto pintava.
A morte pode ser a última apresentação de um programa de rádio num teatro improvável nesses dias nossos. Depois que acaba, senta-se numa mesa de lanchonete igualmente improvável fora dos anos cinqüenta e se discute como é que o espetáculo vai fazer pra não parar. Sem se dar muita importância para isso. É melancólico e não é. A melancolia deriva do fato que a gente se relacionando com a morte a partir da posição de vivos é uma coisa melancólica. E é exatamente isso, em conteúdo e reflexão que está no excelente A última noite, de Robert Altman, o que ele fez sobre morrer, porque ele sabia que estava mesmo chegando (e chegou poucos dias depois da finalização). Eu fiquei profundamente tocado.
Quando eu for morrer, vou antes fazer as malas, passar um café no coador e pô-lo numa xícara grande e vou me sentar numa cadeira da sala de jantar, perto da mesa vazia, pra acomodar bem o cotovelo. Não vou acender a luz, porque vai estar quase pra amanhecer. Vou abrir a janela pra ter um pouco de frio, e na hora em que o céu começar a ficar rosa, Ela vai chegar, e vai ser uma viagem de trem, dessas marias-fumaças. Vou entrar no trem, e ele vai me levar pra Minas Gerais...
Escrito por Hugo Lorenzetti Neto às 00h15
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