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Videódromo
Eu mesmo, nos meus momentos energia negativa, já disse que a invenção da câmara digital (que nem é câmara, se a gente pensar etimologicamente) acabou com a fotografia, com o cinema e até com o próprio vídeo. Poizé, às vezes eu morro de vergonha quando percebo que meu primeiro pensamento foi o mais reacionário possível. Eu que me esforço pra parecer democrata até o dia em que eu tomar o poder e todo mundo estiver fodido na minha mão... Seja como for, é besteira isso. Os meios técnicos não existem sozinhos, qualquer pessoa que, como eu, pensa que é marxista (do bem) e bakhtiniano sabe disso. Os meios técnicos são, tampouco, capazes de provocar a desgraça do mundo. Claro que a câmara digital evidenciou a estupidez humana, mas ela já estava lá, e andava cada vez mais forte e bem nutrida. Os novos meios de captação de mensagem só serviram para tornar o mundo mais sincero e franco no que concerne sua estupidez. Que nem blog: só prova que há muitas pessoas, como eu, que não sabem escrever.
O doomsaying saudosista e ingenuamente ludista já foi até tema do primeiro videoclipe que apareceu na primeira MTV do mundo, o "Video killed the radio star", do Buggles. Está lá. Abram uma segunda janela, digitem dabliodabliodablioiutchulbpontocom , controlcêcontrolvê no buscador que o vídeo aparece.
O lado da luz disso tudo é que quem tem uma ideiazinha maisoumena pode desenvolvê-la, e aí aparece um montão de coisas interessantes no iutchulb. Por exemplo, ontem, aparentemente, o Carlos vadiou no youtube. Ainda é possível, já que não estamos no auge da orkutização do youtube ainda, e que o sistem de busca e as listas relacionadas entre si ainda têm alguma coerência (se alguém não entendeu, orkutizar significa encher de adolescentes, independente de sua idade biológica).
Enfim. Ele achou algumas obras primas, que nem esse clipe de "Solte o Frango", da banda Bonde do Rolê ("a gente somos linda/ a gente somo inteligente/ e antes de dar o edi/ eu jurava que era crente"). O clipe não é a coisa mais estética no sentido Itamaraty da coisa, mas a letra é sensacional no seu não dizer nada, que nem o vídeo que tem Lulina e os Causadores no Centro Cultural São Paulo (bota lá "Lulina" que aparece). E tem o vídeo-que-dispensa-apresentações "Tapa na Pantera", com a Alice Vergueiro, golpe de sorte de uns cineastinhas adolescentes bobos (veja também a entrevista com eles, os três de óculos escuros capitaneados por uma bichinha feia que dói, e confirme que foi sorte, não genialidade), e que rendeu depois de anos de obra consistente, uma graninha pra atriz, que merece.
O mundo não vai acabar pelas mãos do digital. O digital fez possível o Buena Vista Social Club, lembrem-se. Pra mim, atualmente, o maior problema daascensão e chegada na minha casa do digital é que eu não sei o que vou fazer com essas quase 2 mil fotos da América Central...
Escrito por Hugo Lorenzetti Neto às 07h54
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1. Comecei o dia com essas acordadas atrapalhadas. Demorei pra entender que o despertador era o despertador, e pra perceber exatamente onde eu estava e essas coisas. Aí demorei sentado na cama. Descobri que não em leite de soja mais, e que meu café-da-manhã ficou impossível. Mas não fui ao supermercado (super, super ele não é não, nenhum em Brasília é, aliás, nada em Brasília é super de verdade, as coisas só pensam que são, e se anunciam como tal, mas tudo nesta cidade é uma bosta metida a besta). E acordei com uma raiva acima da média de Brasília, como já se percebe.
2. Eu achava que diplomacia era fazer meio de campo e fazer com que as coisas entre os países desem certo. Mas aí vem um e fala que é arte. Vem outro e fala que é uma devoção. Vem mais um e não diz nada, mas faz parecer que é uma série de códigos ininteligíveis para a média dos seres humanos normais. E como eu estou na média, já não entendo mais nada.
3. E aí que eu conheci o Ministro da Educação da Nicarágua, e, como ele estava a fim de bater papo, contei pra ele que fui passear lá nas férias e gostei. A gente conversava escondido do diplomata cheio de proparoxítonas. Ele falava de como ele era cético, mas o povo de seu país, não. E falamos de revoluções e romantismos. Eu já tinha dito, e volto a dizer, que existe no mundo um país realmente encantador de verdade. O Ministro me confirmou isso, sem saber.
4. Meu diplomatês melhorou muito. É uma pena, porque ele faz com que tudo seja mais difícil de escrever.
5. Ontem a gente aqui em casa viu Bubble, do Sondebergh. Eu vou explicar agora (momento tratado estético) porque se filme é mais cinema que essa coisa genérica aguada que a Jesusland produz em série e os tontos de todo o mundo imitam. Bubble é mais cinema porque as imagens são centrais, não precisam ser explicadas por enredos óbvios e muitas falas. É mais cinema, também, porque as pessoas param de falar e deixam o silêncio ser parte do significado (aliás, uma coisa que me irrita no cinema jesuslandês é o fato de que não há cena sem gente falando, o que é mais irritante quando você conhece um jesuslandês e percebe que é deles isso de não parar de falar). Também é mais cinema porque não se preocupa com esclarecimento de dúvidas pós-fim-de-filme, ou seja, não epiloga tudo e respeita a nossa parca inteligência, que pode ser parca, mas está lá.
Escrito por Hugo Lorenzetti Neto às 06h08
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Sobre várias coisas
1. coincidentemente a maria recomendou um filme que eu havia alugado umas 2 horas antes. o Secretária é mais uma peça que vale a pena made in Jesusland. o amor em mil caras mesmo. a gente devia aprender com esse filme a achar as coisas mais normais. e além disso, a bunda da maggie gyllenhal é fantástica.
2. às vezes, as pessoas pensam em coisas importantes do passado. às vezes elas são uma outra coisa no presente, uma coisa mais com casca, mais disfaçada. é legal quando elas pensam no passado em voz alta. não estou falando de ninguém. quer dizer, estou falando de muita gente, de mim mesmo e não de uma ou outra ou mais outra pessoa que conheço.
3. coisa que o carlos escolheu (porque ele é muito mais sensível que eu e eu escolhi um mais pop):
I am too big. Too big by far. Pity me. My eyes bulge and hurt. They are my one great beauty, even so. They see too much, above, below. And yet, there is not much to see. The rain has stopped. The mist is gathering on my skin in drops. The drops run down my back, run from the corners of my downturned mouth, run down my sides and drip beneath my belly. Perhaps the droplets on my mottled hide are pretty, like dewdrops, silver on a moldering leaf? They chill me through and through. I feel my colors changing now, my pig- ments gradually shudder and shift over. Now I shall get beneath that overhanging ledge. Slowly. Hop. Two or three times more, silently. That was too far. I'm standing up. The lichen's gray, and rough to my front feet. Get down. Turn facing out, it's safer. Don't breathe until the snail gets by. But we go travelling the same weathers. Swallow the air and mouthfuls of cold mist. Give voice, just once. O how it echoed from the rock! What a profound, angelic bell I rang! I live, I breathe, by swallowing. Once, some naughty children picked me up, me and two brothers. They set us down again somewhere and in our mouths they put lit cigarettes. We could not help but smoke them, to the end. I thought it was the death of me, but when I was entirely filled with smoke, when my slack mouth was burning, and all my tripes were hot and dry, they let us go. But I was sick for days. I have big shoulders, like a boxer. They are not muscle, however, and their color is dark. They are my sacs of poison, the almost unused poison that I bear, my burden and my great responsibility. Big wings of poison, folded on my back. Beware, I am an angel in disguise; my wings are evil, but not deadly. If I will it, the poison could break through, blue-black, and dangerous to all. Blue-black fumes would rise upon the air. Beware, you frivolous crab.
(Elizabeth Bishop, Giant Toad)
Escrito por Hugo Lorenzetti Neto às 23h14
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Recomendação
Mais estranho que a ficção. Nem vou discorrer sobre o filme pra não estragar. Fazia tempo que eu não via uma coisa feita na Jesusland que me agradasse tanto. Tudo bem que a estrela é a Emma Thompson, inglesa, para sua grande sorte.
Escrito por Hugo Lorenzetti Neto às 06h53
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Flashback intelectual
Recebi a encomenda de um artigo menos chapa branca pra revista da WRHS (White River High School). Aparentemente existe um fundamentalismo corporativista, e meus coleguinhas do RBd não admitem vida inteligente fora da Esplanada dos Ministérios, bloco H, o que resulta em textos exclusivamente sobre a nobre e chique atividade que exige inversão entre substantivo e adjetivo em todas as ocorrências. Paciência.
Então eu recuperei um trabalho antigo que nunca terminei, que punha lado a lado Macabéa e Lindonéia, a primeira da Clarice Lispector, e a segunda de Rubens Gerchman. E de repente a cabeça, que está louca de vontade de pensar, faz um flashback intelectual pra primeira metade da primeira década do século XXI. E dá vontade de estar sentado de novo no Carpe Diem, que hoje tem outro nome, com meus colegas da Letras, os amigos das Arte Plásticas, a orientadora de pesquisa e de vida, a outra orientadora e amiga, o professor de Literatura Americana amalucado e também importantíssimo na minha vida, os livros chatos de Lingüística Histórica... Nunca pensei que fosse sentir isso.
Mas o Carpe Diem mudou de nome. E não se atravessa duas vezes o mesmo rio. E fico feliz por estar tão a fim de buscar a academia, mesmo sendo uma esquisita e cheia de prédios do Niemeyer.
Escrito por Hugo Lorenzetti Neto às 06h23
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