muitoconceito


Segundo livro do ano

Minha mãe morrendo, de Valêncio Xavier, é uma obra concentrada. Eu peço desculpas por não usar uma categoria analítica literária, mas foi essa a impressão que ele me deixou. O livro não tem mais que 50 páginas, e, descuidadamente, pode ser lido em meia hora. Só que aí você não presta atenção às figuras, e com isso não percebe que perdeu parte do texto. O texto é uma reflexão com tom memorialista, mas não no esquema Umberto Eco (no Brasil, o esquema Graciliano Ramos), e num olhar descuidado, parece verso, mas é mais fluxo de consciência interrompido, entrecortado. Tampouco é o fluxo de consciência de Joyce & cia. É algo que só Valêncio Xavier se atreve a fazer, que lembra pouco texto que já li. Junto ao texto, ocupando várias das páginas sozinhas, estão imagens evocativas do início do século XX, e elas – bem como as palavras – são brincadeiras entre significante e significado, mas não na perspectiva dos semióticos (sabem eles, né, pessoas que enxergam tudo com um olho só, ou seja, metade da vista). Parece que a primeira pessoa do texto tinha à sua disposição uma caixa com frases soltas (mas relacionadas entre si), fotos antigas, cartões postais velhos, ilustrações recortadas de livros e revistas antigos, e que para juntar tudo isso com tesoura e cola, tinha dntro de si muita dor psíquica e algumas doses de trauma freudista.

CONTINUA ABAIXO!!!



Escrito por Hugo Lorenzetti Neto às 19h37
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Ainda bem que a edição que eu comprei (ou melhor, havia comprado e não lido há algum tempo – um segredo sobre minha biblioteca é que eu em geral compro cinco e leio quatro) trazia mais outro livro junto, O menino mentido, que eu já estou devorando, ao mesmo tempo em que devoro meus troféus de viagem, a minha Biblioteca Centroamericana, lendo o livro de Rosa María Britton. Divirtam-se com o trecho:

 

minha mãe

é aquela à direita

na foto a mais magra

odalisca de turbante

sofria

de uma grave

doença nos pulmões

na época sem cura

morreu quando eu

tinha treze anos

acho que nunca me amou

nunca

acho até que tinha ódio

de mim seu filho

aquele que se chama

Valêncio

acho que a foto

foi tirada numa fazendola

no Rio Grande do Sul

Soledade

Tristeza

Encruzilhada

Nardo Canela Mirra

Sândalo Almíscar Incenso

Maderas de Oriente

Bálsamo de minha mãe nua

recostada no banho

Perfume inebriante

como esperma

nardos benjoins

cravos jasmins

e água pura

eu

punheta no banheiro

pelas coxas de Maria Montez

deitada em alfombras douradas

vista a cores no cinema

anedota ouvida na escola

Um jeca vai para o quarto

e beija a puta na boca:

tua boca tem aroma

de Madeiras do Oriente

Deve ser porque acabo de

chupar o pau de um japonês

(risos)



Escrito por Hugo Lorenzetti Neto às 19h37
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As crianças crescem rápido...

E olha... Dá até um caldo pra quem não é comprometido como eu...

Clica!



Escrito por Hugo Lorenzetti Neto às 17h01
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Sobre o peixe e seus filhos

Normalmente eu tenho problema com issode júnior. Meu trabalho e os júniores que existem nele dão grande margem a esse tipo de preconceito. Tanto é que eu nem posso ser culpado por esse, ele tem base, não é tão pré assim (momento parentético: eu não sei vocês, mas eu fico pedindo pra morrer quando alguém separa, com ênfase fonética, preconceito de preconceito quando discursa, dá palestra, etc. Sabem como é isso, não sabem? Aquele jeito - e com cara de sociólogo, nada contra os sociólogos, só contra a cara deles - ¨isso é de fato um /pré' conceito/ mais que um /prêconceito/¨ [barrinhas = transcrição fonética]). De modo que eu não vou pro inferno por causa desse preconceito. Só por causa dos outros 1297.

Eu ia falar de outra coisa, que tem a ver com os júniores. É que o Ernesto Cardenal que vocês conhecem tem filhos, dois. E existe o Duo Guardabarranco, que tem CDs com fotos de encarte bacaninhas. Aí eu vi na loja, mas atacou o preconceito, não importa como vocês queiram pronunciá-lo, porque os dois do duo são filhos do Cardenal. A mulher da loja me convenceu a levar, afinal os Cardenais são os deuses da arte nicaragüense, e do pai eu já conhecia a divindade.

O Duo Guardabranco não traz nada de muito inovador, o que não é problema se a gente considerar que o modernismo acabou e que a gente tem muito mais o que fazer na produção artística que ficar tentando chocar a audiência. O som deles é esse som latino resultado da intelectualização ou academização (no bom sentido) da música de raiz, algo semelhante à MPB antes da entrada da Fernanda Porto no catálogo de CDs desse gênero. Muitas das letras são poemas musicados, alguns, inclusive, de autoria do Cardenalzão. Acho que isso é extremamente interessante, importante até, de grande benefício para a poesia. Pena que no Brasil a poesia tem proparoxítona demais ou é neo-pré-pós-concreta (salvo exceções, e outro dia a gente pode discutir isso), e não é possível musicar a palavra ¨balaústre¨ (imaginem a chatice do Bilac cantada, que beleza!).

Seja como for, o CD ¨Una Noche¨ é muito bacana, daqueles que a gente faz aaaah quando acaba. E como eu não sirvo muito pra crítico de música porque não sei nada, vou colocar aqui uma das minhas favoritas desse CD e chamar isso de post e encerrar. Audições na 415 sul, vocês sabem o bloco e o apartamento.

Soy Latino
letra e música de Salvador Cardenal Barquero

No me hace bien mirarte triste
Las lágrimas no hacen justicia
Mejor bailemos con la vida
La danza de la tierra libre

Latino y en cualquier tierra
Yo quiero a la gente, no las fronteras
Latino, sangre de vino
Amargo el destino que puedo darme
Soy latino que adora este mundo
Yo bailo en el camino
Y me creen vagabundo
Soy latino y en cualquier parte
Dulce destino que puedo darte
Soy latino de amar profundo
Bailando en el camino
Me voy deste mundo
Cantando en el camino
Me voy deste mundo.

Me gusta ser mujer latina
Tener el corazón silvestre
Te quiero libre en tu destino
Pero cuidemos el terrestre

Y si me viste que he llorado
Cuando escuche cantar al pueblo
Pues baila ahora aquí a mi lado
Para que no se apague el fuego
De los latinoamericanos

Soy latino y en cualquier parte
Yo quiero la gente y odio la guerra
Latino sangre de vino...



Escrito por Hugo Lorenzetti Neto às 08h45
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a placa

A placa mais legal da viagem, ou melhor, sua foto, já estã no fotoblog, link aí ao lado. Também aí ao lado estão os blogs da Marília e do Marcelo. E no meu fotoblog, vou colocar uma ou duas fotos por dia, dessa viagem, da de Buenos Aires ou qualquer coisa. Ainda estã de pé o álbum que vamos fazer aqui em casa, que deve ficar pronto daqui uns 15 dias.

Escrito por Hugo Lorenzetti Neto às 22h31
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Sobre o primeiro livro de novo

Eu sou poser mesmo, que é que se vai fazer. Um dia eu vou cometer suicídio por causa disso, de tanto que eu detesto esse aspecto lastimável da condição humana. Aí que o primeiro livro do ano foi Caballeriza, do guatemalteco Rodrigo Rey Rosa. É um policial com vantagens. Daria pra comparar com a Patrícia Melo, se ela soubesse escrever. A história, maisoumenasmente, é sobre um escritor que tem o mesmo nome do autor, que começa falando da situação em que uma pessoa, sabendo que um tipo é escritor, sugere que ele escreva sobre essa ou aquela coisa. Normalmente não dá em nada, mas para ele, dessa vez, deu. Até porque a pessoa era parte da história e acabou envolvendo o narrador nela (disso eu gostei, que uma sugestão ou relato alheio resultasse numa narrativa em primeira pessoa e não em terceira).

A linguagem é despretensiosa, e, durante o texto, quando um dos personagens está quase matando todo mundo depois de uma cena de jantar à la quem matou foi o mordomo, o mesmo com a arma na mão pergunta pro escritor o que é qu ele escreve, a que o escritor responde que escreve coisas fáceis de serem lidas. E responde o quase assassino: me parece una buena idea.

Mas essa metalinguagem não é daquelas umas chatas de escritor que conversa com o amigo leitor. Aliás, chamar de amigo leitor o leitor fazendo de conta que e Machado de Assis devia ser crime contra a humanidade, e os infratores deveriam ser picados e moídos. Rey Rosa discute o praqueque serve o livro, ser escritor, etc. É inevitável pensar nisso e quase inevitável incluir isso num texto, uma vez que a literatura realmente serve pra pouco em uma época de triunfo da indústria cultural. E a estratégia de se colocar, com nome e tudo, como personagem principal de um policial quase fantástico é muito produtiva.

O enredo, por cima, é assim: o pai do escritor foi o que trouxe o primeiro cavalo andaluz pra Guatemala, e por isso é convidado pra todos os eventos eqüestres do país, mesmo depois de anos sem ter nenhum cavalo. Então ele vai com o pai á fazenda dos Carrión, os todos-poderosos das terras quase baixas a caminho do Pacífico, para o aniversário de 88 anos do Carriónzón. Durante a festa, o cavalo de 100 mil dólares morre na explosão do curral. E nisso um advogado (que vai ser referido como abogángster) resolve conversar com Rey Rosa sobre o quanto aquilo daria livro. Aí tem corrupção, menino preso debaixo do curral num calabouço, escritor se metendo onde não deve, cena de jantar com muito costrangimento, zoofilia e pedofilia (na mesma frase, apenas como explicação de uma personagem) e nenhum bem ou mal, apenas a literatura tentando sobreviver.

Outra coisa bastante leal do livro é que ele traz de volta a grande questão regionalista. Muito se fala na literaturalândia na superação do paradigma neo-realista, e muitas vezes sai sangue dessas conversas, em especial quando a gente encontra um grande defensor da universalidade, que não consegue imaginar que escritor também é gente e que acha que obra boa é aquela em que se fala sobre ser ou não ser, apenas. Está certo que naõ se poderia viver na literatura latino-americana para sempre com o regionalismo. Mas tanto seu vigor como seu enfrquecimento são apenas fatos literários e não bandeiras políticas ou coisa pra Veja izer que o mundo está de joelhos pra vanguarda ou pro caipirismo. O que Rey Rosa faz em Caballeriza é usar como material literário a própria questão, e, como um bom contemporâneo, tudo cabe e o resultado é bom: é policial, é texto que pode até ser vendável, é regional em certo sentido e discute o ondestamosprondevamos, que faz falta a muita gente sem profundidade e brilho próprios nesse mundo idem...

Contei foi porque deu vontade de publicar esse link: http://sololiteratura.com/rod/rodprincipal.htm, que só não tem nenhuma referência ao Caballeriza, fazer o quê, mas tem bastante coisa sobre o autor. E começo hoje a ler um de Rosa Britton, panamenha. Depois eu conto.



Escrito por Hugo Lorenzetti Neto às 09h44
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Primeiro livro do ano

Demorou, até porque eu estava pro aí fazendo coisas que atrapalham a leitura, mas li meu primeiro livro do ano. Tudo bem que isso da viagem explica pouco a não-leitura, já que o Carlos leu 5 livros (mesmo desses bobos, cuja bobeira ele admite, mas conta). O fato que li, do começo ao fim. E o comentário ao livro vai ficar assim terrivelmente poser, já que foi um dos que comprei no caminho - a Guatemala, pra ser mais exato.

E já que vai ficar poser, acho que nem vou comentar nada.


PS: Estou preparando um post sobre a cidade do Panamá.



Escrito por Hugo Lorenzetti Neto às 15h51
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