A Letícia nao sabe, mas ela exerce uma influencia enorme sobre esse blog. Este post que segue é prova disso.
Estávamos indo de volta à Nicarágua, mas houve o esquecimento do money belt de uma das partes viajantes, non dig’eu qual, e a gente teve que voltar a San Salvador, e agora vamos passar mais uma noite aqui. Nao que eu esteja reclamando. Eu queria passar anos em El Salvador. E o próximo destino, Nicarágua, também é outro lugar onde eu gostaria de viver anos.
Sobre a Nicarágua. Estávamos saindo de Masaya indo para Matagalpa quando foi o dia da posse de Daniel Ortega. Na estrada, no sentido contrário, vinham muitos onibus e caminhoes carregados de gente com a bandeira da FSLN, todas cantando e cumprimentando quem vinha em sentido contrário. Eu achei que entendia essa alegria, mas custou um pouco mais a ver o que ela realmente significava. Masaya havia dado mostras: as paredes das casas ainda tem buracos de tiros da Revolucao. E em Estelí, que visitamos depois de Matagalpa, San Rafael e Jinotega, havia o museu mais comovente que eu vi na vida.
O museu é iniciativa das maes dos revolucionarios de 1979 – algumas das quais acabaram assassinadas durante o conflito dos Contras, patrocinado por voces sabem quem e dirigido por um ator que resolveu virar politico (este nao, aquele, que foi pro inferno nos bracos do Alzheimer). É um lugar em cujas paredes exteriores há um mural modernoso, mas que pelo lado de dentro é de uma precariedade super triste. Mas necessária. Um museu limpinho e arrumadinho apenas esfriaria tudo. A carga emocional da colecao de objetos e fotos naquele lugar escuro é indescritível, desculpem. Na hora, eu e Carlos ficamos sem ar. Há textos escritos pelos caídos, há fotos de gente super jovem que morreu na guerra, e no meio de tudo, numa mistura que só um latino-americano pode entender, está um altar, com fotos de uma freira, também assassinada em meio a seu trabalho social, a Virgem Maria, e símbolos do socialismo.
Na Nicarágua, as pessoas, quando a gente fala que é do Brasil, diz assim: “ahá! Lula da Silva, ¡Viva la izquierda!”, em vez de dizer “¡Ronaldinho, fútbol, etc!” E aí elas ou sao extramamente desconfiadas e fechadas ao contato, ou extremamente gentis, que só faltam levar a gente pela mao quando a gente se perde entre as calles y avenidas sin nome.
E lá, as pessoas nao se esquecem. As pessoas gostam de contar as histórias. Em Masaya, por exemplo, um homem que estava na rua, como esses doidos de rua, tentou adivinhar nossa nacionalidade de disse “franceses”. A gente falou que era do Brasil e ele ficou MUITO feliz de saber que os latino-americanos estao se visitando. Em Matagalpa, a gente conheceu um ex-embaixador do governo revolucionário, o que foi acreditado na Suécia em 1979, e que dizia que era engracado ver as senhoras louras e gordas querendo dancar com ele. E na entrevista coletiva ele avisou que o governo revolucionário garantia que a Nicarágua nao queria invadir os EUA.
Na Nicarágua, a gente de lá dá vontade de abracar.
Os governos de direita sucessivos deixaram a Nicarágua um tanto sem esperanca. E no dia em que a gente estava chegando em Matagalpa, Ortega tomou posse. Se velhos tempos nao voltam, espero que voltem à vida os velhos sonhos de liberdade e igualdade desse irmao latino-americano tao sofrido…
Escrito por Hugo Lorenzetti Neto às 21h15
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Em 11 de dezembro de 1981, um comando do exército salvadoreño invadiu o pequeno vilarejo de El Mozote, no departamento de Morazán com ordens de extermínio. Isso incluiu quase uma centena de criancas – e um dos executores, atual prefeito da cidade de San Miguel, capital do Departamento vizinho ao sul, supostamente fez uma colecao de cranios infantis. Era uma vila onde as idéias socialistas revolucionárias haviam chegado, e isso incomodou bastante nosso vizinho mal educado do Norte. Há fotos horripilantes da barbárie no Museo de la palabra y del Imagen, aquí em San Salvador. Há textos escritos pela própria gente que vivia lá, e também da única sobrevivente do massacre, que viu seus filhos serem mortos, enquanto os ouvia gritar “mamá, ellos nos están ahorcando”.
A Guerra Civil também gerou um contingente de refugiados que passou a fronteira com Honduras, e acabou cercada de arame farpado num espaco que nao virou campo de concentracao porque as pessoas se organizaram como uma vila coletivista e produziam artesanato para venda e comida para subsitencia. Antes de acabada a Guerra, Honduras os quis expulsar. Parte desse artesanato eram bordados em que esses salvadorenhos pediam socorro à comunidade internacional e desenhavam seu modo de vida em pequenas cenas cotidianas. Honduras os expulsou em 1988, quando ainda ia alta a guerra. Nao se sabe mais nada dessas pessoas, exceto por um rapaz, que doou esses trabalhos para o Museo del Arte Popular.
Havia o Monsenhor Romero, líder religioso e civil, que trabalhou por ver seu povo livre do governo patrocinado pela CIA. Morreu poucos meses antes dos Acordos de Paz, que agora fazem quinze anos, com um tiro dado por um agente dos EUA que conseguiu escapar, no meio de uma missa. No altar, a homenagem ao herói caído. E a poucos metros da Igreja, a continuidade de seu trabalho num centro de apoio à populacao carente.
El Mozote estava na lista. Tiramos. O que aconteceu lá foi sério, nao é atracao turística. Mas a regiao de Morazan virou um plano pro futuro: assim que acabar o período Rio Branco, vamos trabalhar em El Mozote por um mes como voluntários. Só espero que isso seja possível mesmo.
Escrito por Hugo Lorenzetti Neto às 20h39
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