Uma pessoa, non dig’eu cual, cuja funcao exige muito patriotismo e grande conhecimento das ciencias sociais, em especial a sociología e a politica, disse que era impresionante como San José tem clima de país desenvolvido. Ainda bem, porque assim o sangue das pessoas aquí na Costa Rica nao engrossa e elas nao ficam com preguica de trabalhar.
Seja como for, estamos aquí em San José. Chegamos ontem depois de um onibus terrivel, que vai fazer eu nunca mais reclamar de ter de pegar Itapemirim segunda classe. O Carlos ainda dormiu, mas eu, nada. Saimos de Bocas del Toro dispostos a nunca mais ir a praia na vida. Vai ser meio mentira, porque vamos querer ver um
por do sol no Pacifico. Mas sera ver e sair. Antes que a areia entre em tudo.
Mas voltando a viagem, a gente saiu cedo, mas nao muito, de modo que foi um sufoco para pegar o onibus as 10 da manha em Changuinola, uma cidadezinha de mangue perto da fronteira. O atravessamento de fronteira foi simples, a mulher da Costa Rica era bem
simpatica. Mas ai e que aconteceu. Um gringo, que como todos esses europeus pos adolescentes era bem maleducado, resolveu desaparecer, afinal de contas, num pais que debe sua existencia civilizada a Espanha, e por consecuencia a Uniao Europeia, os onibus devem esperar que as majestades louras queiram ir embora de uma cidade de fronteira que tem uma lojinha com a chinesa sua dona dentro alem do posto policial. E o
lugar da majestade era ao lado do Carlos (eu estava la no fundao). Ai o onibus foi mesmo assim, mas teve de parar, porque o ariano superior a nosotros todos mandou, via policía costarricense. Mas no meio tempo eu sentei no lugar do meu superior racial. E nao levantei. Ele que se fodesse e fosse em pe. E foi. Bem feito.
Tres horas depois e um acidente para a pista. Quase uma hora depois, chegamos em Puerto Limon, onde se via um naviozao enorme de cruzeiro e outro de carga, os dois balancando horrendamente ao sabor de umas ondas violentas. A cidade era tambem caribenha, e enquanto o Carlos pescava na janela eu me arrepiava só de pensar de ter de encarar mais reggae e essas coisas do Caribe.
Uma hora depois e chegou a parte mais bacana da estrada, o bosque nuboso. Lindo, um monte de árvores no céu, uma coisa de doido. Parece a Serra de Taubate, só que com muito mais nuvens. Lindo mesmo. E aí San José: fomos direto para um hotel de por Bukowski roxo de inveja. E neles ficamos bravamente por duas noites, até agora, hora de sair e ir para Liberia, a cidade na regiao de Guanacaste, dos caubóis costarricenses.
San José é muito bacana. Âs vezes hembra Campinas, às vezes hembra Sao Paulo, e parece bem com Belo Horizonte. A História daqui é meio parecida com a do Brasil, com guerras no século XIX, República do Café e essas coisas. O símbolo nacional é o carro-de-boi, e tem miniaturas dele tudo por aí, todos coloridinhos. O boyeo e a carreta sao, inclusive, patrimonio imaterial da humanidade unescalmente falando. As pessoas aquí sao duma simpatia maravillosa, só que há ua porçao de taxistas safadinhos que tiram dinheiro da gente quando a gente nao presta atençao. Hoje, por ejemplo, um fiadaputa cobrou fechado para levar a gente num lugar que eu nao sabia onde era ate descubrir que era mair perto que a mayor corrida de taxi que chegamos a fazer…
Tem os museos aquí. Sao uma beleza, com proposta didatica para gente pequena e gente grande. O Museo de Oro Precolombino é um arraso. Hoje vimos o de Jade, outro tambem muito bem montado. So os de arte que váo ficar para volta, porque estao todos fechados agora, nesse periodo de festas (alias, esse e que e o saco de viajar na alta temporada).
Estao saindo postais, colocados ontem. Os do Panama foram tambem postados aquí, infelizmente. Tem para todo mundo, ou quase. O email é conhecido, e quem quiser postais que me mande o endereco. Hoje saem mais uns postais, dois pro Leo.
Ah, sim, e tem o resto da aventura panameña. Bocas del Toro tem esse monte de ilha e é preciso ir de bote a todo lugar. Aí que eu e o carlos mais uns quinientos pós-adolescentes gringos fomos para a Playa de la Rana Roja, onde tem uns sapinhos, juro, do tamanho da ponta do dedo indicador. Eles estao em toda parte, é muito legal. O problema nessa praia aí é que eu enfiei o dedao no pier na hora de descer, e ando aleijado até agora… Mas fora isso, o único problema foi a autraliana filha de malaios (esses filos de imigrante sáo uns monstrinhos, em geral) que disse que debe ser terrible viver no meio de tantas favelas no Brasil. Mas aí o Carlos jogou ela para fora do barco e o motor da lancha a moeu e ela já debe ser bosta de peixe a essas alturas… Mentira, mas na nossa imaginaçao a gente fez isso umas quinze vezes. Entao, meus amigos favelados, espero que estejam conseguindo ler isso aquí nos seus computadores de folha de bananeira. Nesse dia, aliás, é que mudamos todo o roteiro e todas as reservas de hotel para náo encontrar mais turistas europeus, estadunidenses e esses outros lugares sem praia e sem floresta e só com gente civilizada. E praia agora só mais uma. A gente aliás quase se enfiou numa roubada indo para Tamarindo. Aí, a tempo, descobri que o apelido do lugar é Tamagringo. Deus me livre.
Essas férias aliás estao me fazendo refletir sobre a naturaza do turismo. Minhas conclusoes, ate agora, como e de se esperar, sao azedas e cheias de odio, e parece certo que esses europeus viajam sem sair de casa (eles so vao a albergue, so andam juntos e nao se misturam com ninguem da terra que visitam, para comeco). Mas nao vou azedar agora que nao convem. O chato foi descubrir que ando meio antieuropeu.
E para encerrar, o último dia em Bocas del Toro foi andando 30 km de bicicleta subindo e descendo. Nem eu acredito que fiz isso.
Escrito por Hugo Lorenzetti Neto às 14h22
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