MMVI
Esse ano pareceu dois. Aliás, não é a primeira vez que isso acontece, e eu gostei muito das outras vezes, e dessa vez foi melhor ainda. Anos dois-em-um são uns anos em que percebo certa likearollingstonebilidade da vida. E depois deles vem sempre um pavorzinho de que nos assim possam nunca mais acontecer, e que eu vou criar limo.
O engraçado acontece com as coisas passadas. Parece que 2003 está nos anos 80, coberto com uma trilha sonora de Simple Minds, Iggy Pop e Cindy Lauper. A Teresa me mandou um post antigo dela que é da época que eu usava tiara. Essa época foi 2003... Era a época em que eu era professor de cursinho, e que eu conheci a Letícia, que veio passar uma semana do fim de ano duas décadas depois, em 2006 mesmo. Era a época em que viver doía horrivelmente, e que eu tinha vontade de chorar e não conseguia. Procuro uma memória desse tempo em que eu estivesse vestindo uma calça USTop, mas há 3 anos USTop já não existia mais. O texto da Teresa me deu uma saudade do tipo Breakfast Club (Clube dos Cinco, acho).
Esse ano eu aprendi a falar de política falando menos bobagem. Esse ano eu virei celebridade local (bem local mesmo, quase tão local como o espaço de um banheiro, mas celebridade assim mesmo). Esse ano eu morei em duas cidades diferentes, em dois Estados diferentes e em duas macrorregiões diferentes. Foi um ano geográfico. Eu vi o Rio da Prata de cima, e caminhei em sua margem dando tchauzinho pra cima pro Google Earth me ver – afinal ali era um pedaço importante! Eu vi umas quatro vezes a forma do avião a partir de um ônibus voador da Gol. Percebi com dores de bolso que uma região sem indústria e sem agricultura tem tudo mais caro no mercado, e descobri que no Distrito Federal as pessoas não gostam de roupas bonitas, ao menos ao julgar pelas lojas. E conheci a geografia da saudade. A geografia do ter que dar tchau e não ter certeza ou mínima noção do próximo oi. A geografia do caminho percorrido que jamais se voltará a pisar – essa geografia assustadora.
Foi um ano de percepções. A percepção do adeus constante, que numa tarde de quarta-feira, com uma xícara de café e um pedaço de torta de morango e só o garçom e a caixa do barzinho, me fez chorar baixinho e ter medo daquilo que conquistei. A percepção de que procuro evitar inversões entre adjetivos e substantivos para não parecer muito com “eles”. A percepção confusa dos novos “eu”, “nós” e “eles”.
Foi um ano com um corte fundo. Um corte de onde saíram sangue e flores.
Um ano que me fez pensar com carinho naqueles que me desejaram bom 2006. Obrigado, a esses. Foi um ano bom, de pedras redondinhas.
Escrito por Hugo Lorenzetti Neto às 11h22
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|