Oisas.
Que nem o monstro embaixo da cama
Esse Jogos Mortais 2 (e o primeiro também) não tem nada de genial, nada de especial. A fórmula do medo infantil amplificada está lá, como se fosse para construir um filme sobre o monstro debaixo da cama só que mais hardcore. Mas ninguém entra numa sessão de cinema para ver um filme assim esperando desvendar o insondável segredo da vida. Ninguém sai desse filme e vai ler Em busca do tempo perdido num café francês mesmo que more em Campinas. E se fizer isso é porque mudou de assunto e sintonia, ou porque é muito pedante e está arrependido de ter se entregado ao pop - ainda que eu ache a idéia de ser intelectual pop e mercantil também. Mas o filme é muito legal. Em primeiro lugar é uma boa seqüência: segue a lógica da anterior ainda que traga um final “aguarde o número três” quase forçado, ainda que plausível e ao mesmo tempo permite que uma pessoa que não viu o filme anterior veja esse sem ficar perdida. É uma seqüência que respeita o novato e aquele que viu o anterior. Coisa que muitas não fazem. E é um filme aflitivo, o que é muito bom...
Debord
Acho que vou acabar a leitura desse livro e vou ser desplugado automaticamente da matriz. Antes que me esqueça, eu odeio Matrix, ainda que só tenha visto o primeiro (que já foi superficial e babaca o bastante, não me venham dizer que ele é melhor - os outros é que são medonhos). Esse A sociedade do espetáculo ganhou o prêmio de mais difícil de 2005, e isso porque eu li o primeiro livro do Em busca do tempo perdido. Mas também foi a coisa mais genial do ano. Quer que eu desenhe partes pra você? Eu faço isso em post específico.
Verdadeiros Animais
Comprei esse, que é da Rocco, por acaso. Acabou meu tempo na Fnac e eu passei a mão nele em vez de levar Mongólia do Bernardo Carvalho. Não sei desse e suspeito que seja excelente ainda que tenha sido preterido, mas esse da Hannah Tinti foi uma diversão. A tradução me parece boa, até porque tudo faz sentido direitinho. T3m girafa que faz greve e é substituída no zoológico, tem o menino que faz o coelho voar gritando “para o alto e avante” e tem até um road short story com garotos de sexta série. São contos muito interessantes. Nenhum experimentalismo (que é legal, mas é outra proposta), mas narrativa muito bem montada, construída, bem no esquema dos bons egressos dos cursos de Creative Writing nos EUA.
Escrito por Hugo Lorenzetti Neto às 02h10
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And so this is Christmas.
Normalmente passa em branco no blog. Na minha vida não, até porque nessa data eu preciso decidir que parte das comemorações eu vou passar com quem, os filhos de pais divorciados como eu sabem do que estou falando. Aliás, essa é a pior parte de ser filho de divorciados. Mas não comento nada no blog porque sinceramente eu acho Natal um saco. Não chego a odiar, mas também não gosto não. E não é por causa daquela conversa oh, o Natal perdeu o espírito espiritual e a função de congraçamento, congregação, compartilhamento e essas palavras (todas horríveis, já notaram? Quer palavra mais feia e disfônica que “solidariedade”? – vai ver que isso não combina com a natureza, sendo um pouco cratilista aqui...). O Natal nasceu comercial. Essa comemoração com pinheiro na sala nasceu POR CAUSA do capitalismo, e quem duvida vá ler Hobsbawm, está lá n’A Era do capital. E se nasceu assim, não cabe reclamar: é o que temos. E não me incomoda. Aliás, o que me incomoda é esse papo: se ainda quem o reproduz PARASSE DE COMPRAR COISAS, mas não. E gosto de ganhar presente. De dá-los também – só não pus o verbo “dar” na mesma frase do “receber” e antes dele pra evitar o clichê.
O primeiro incômodo do feriado é esse que já expliquei, o da família. É a Primeira Grande Culpa Natalina. Não importa com quem eu passe a noite e depois com quem eu passe o dia, eu sempre me sinto como se tivesse desprezado vilmente a outra parte. Olha como ficou nesse ano: passei a noite com meu pai, logo, fui cruel e injusto com minha mãe. Amanhã vou vê-la, mas para isso vou ter que ficar menos tempo com meus avós. Coitados dos velhinhos. E depois vou pra casa achando que não fiquei tempo suficiente com a minha mãe. Tudo por causa desse aniversário dessa pessoa de cuja existência eu duvido (eu não só não acredito em Deus como acho que nunca existiu nenhum Jesus Cristo).
A Segunda Grande Culpa Natalina vem do fato de que, chuto eu, a data tenha na sua origem algum significado relacionado à ritualística da fartura, às celebrações do bucho cheio. Aí eu vivo num país em que mais de 60% das pessoas tem bucho vazio. E parece que surge mais gente e mais famílias desesperadas e mais gente triste e necessitada pedindo. É raro eu não me comover com gente pedindo. A precariedade da vida fica mais óbvia no Natal.
E aí tem a Culpa Natalina por Comer Demais, que é mais fútil e simples de lidar, mas é culpa do mesmo jeito. Tem a Culpa por Não Ter Gostado Desse ou Daquele Presente, por não ter sido capaz de ver o esforço por agradar que foi feito. E tem a pior culpa de todas: aquela do Não Sei Por Quê. Eu fico melancólico, acho todas as músicas de Natal deprimentes (a do John Lennon e da Yoko pra mim é a pior). E culpa culpa culpa. Bom, o Cristianismo é a Religião da Culpa, não é?
Escrito por Hugo Lorenzetti Neto às 01h32
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