Feels like I'm seventeen again
Já vai Annie Lennox no título. Tenho dois CDs dela, não sei se ela criou mais algum depois de Diva e de Medusa, e além deles tenho um best of Eurythmics. Acho que é nesse último que está a supra. E eu tinha por volta de 17 quando era fã da cantora. Ou antes, ou depois, não sei. Tive uma cabeça de menino de 17 dos 12 aos 21, o que ajuda muito a confundir. Acho também que à época eu não percebia que Annie Lennox falava de seus 17 anos apaixonados e românticos - e talvez inconformados - do alto de seus trinta e muitos.
No dia dezoito de setembro, ou seja, logo logo, eu vou fazer “quase trinta”. Em números exatos isso dá 27. Na verdade, não estou nem um pouco assustado, nem angustiado por não ser mais adolescente há tanto tempo - e que será mais tempo ainda em 2008. Estou é ansioso. Acredito que aos 30, quando eu já for mestre e estiver já doutorando, a vida material será muito mais confortável e a espiritual muito menos inconformada. Acho até que aos 40 vou deixar de ser ateu num processo muito espontâneo que há de me dizer que é melhor acreditar nessas coisas em que eu acreditava aos 17. Aliás, espero poder ter tempo de ter uma vida espiritual e até tempo de mastigar lentamente o dobro de fibras que mastigo hoje em dia, e talvez até me submeter à prática regular de exercícios físicos. Eu só vou ser bonito aos 50 mesmo, e quando eu tinha 17 achava que seria mais bonito aos 25 por uma outra série de motivos, o que foi confirmado.
Bonito e tranqüilo e menos preocupado com certas coisas. Deu certo. Nesse sentido a literatura pode ajudar: as personagens mais velhas que eu parecem capazes de aceitar aquilo que não podem mudar no mundo e de mudar aquilo que podem. Por ora eu ainda penso meio diferente, do jeito que uma vez vi numa tirinha do Calvin, aquele do Bill Watterson, o menino com o tigre de pelúcia que ganha vida (estou explicando porque, dando aula de inglês, descobri que metade do mundo não sabe do que eu estou falando, nunca viu Calvin na vida). Peço forças à imatéria para mudar o que dá pra mudar, não aceitar o que não dá e não saber qual é a diferença entre esses dois grupos de coisas. Já fiz isso muito mais. Aos 17.
Pouco antes dos 17 descobri meu avatar: Holden Caufield. Li e reli mil vezes The catcher in the rye, tomava o livro por bíblia. Mas em vez de vagar em uma sofisticada Nova Iorque dos anos 40, eu vaguei pela parte mais suja e estéril de São Paulo: Minhocão, Santa Cecília, Praça Roosevelt, Marechal Deodoro, etc. Quando ia à Vila Madalena eu me via atacado por uma horrível sensação de inferioridade vendo os ex-alunos do Equipe & demais escolas alternatchivas de filho de profe da USP todos bonitinhos e alinhadinhos, calculadamente casuais e scruffy, ouvindo emepebê nova, selo da Trama antes da Trama de hoje, vestindo agasalhos da Adidas e tênis All Star e camisetas com estampa de números e barbichinhas de Blur, além dos óculos de aro grosso, produzindo vídeos e indo à terapia duas vezes por semana. Eu queria ser que nem eles, mas falava mal. Aliás, eu quero ser que nem eles, mas não vou conseguir. Eu queria ser o João Marcelo filho da Elis Regina, mas minha mãe é só fã da mãe dele e nada mais.
Então eu voltava para as alamedas cinzas, voltava para minha vida de Downtown Boy, que hoje sei, também recebe sua dose de romance e idealização por gente que não foi como eu mas queria ter sido mas não deveria porque não faz o menor sentido querer ser feiochatopobre metido a besta über-intelectual de merda. Eu voltava para o City Centre e ficava lá me roendo, lendo The wizard of Oz com a janela do quarto que era sala e cozinha e sala de TV e biblioteca e salão de baile, jogos e festas aberta sem perceber que um velho estava me espiado de cima do Minhocão e batendo punheta (eu fechei a janela imediatamente, se alguém está realmente preocupado com a minha reação - fechei e sentei pra chorar de ódio). Eu ficava Holden Caufield e tinha ataque de pânico no meio da rua e não sabia voltar para casa a partir de três quadras acima daquela onde ficava o prédio invadido onde eu morava. Eu nunca tive tanto ódio de tudo na minha vida quanto naquela época, inclusive de mim mesmo. Mas às vezes o Holden Caufield dentro de mim dá as caras e textos ridículos como aquele abaixo da foto de Tracey Emin, em que mandei todo mundo se foder. Eu (eu sou o Herói do comentário, para quem não sabe) inclusive. Às vezes ele baixa eu fico com raiva de novo. E dá vontade de explodir e fazer voar merda para todos os lados. Dá vontade de arrancar a roupa e por uma cueca na cabeça e sair correndo&gritando pela rua feito sirene de ambulância. Mas só às vezes. Feels like seventeen again. Desculpem-me pela birra no texto anterior e pela birra nesse. Esse era para ser um blog de opiniões e idéias e Muito Conceito. Mas às vezes não dá. Só ás vezes.
Escrito por Hugo Lorenzetti às 14h05
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