Animais idiotas
Estou meio doente, como em todo mês de agosto. Tosse, garganta irritada com areinhas, gatinhos brancos e bichinhos do ranrran. Aliás, pior que agosto, só janeiro, quando faz um calor insuportável e eu me cubro de assaduras e ecas nojentas de pele de todo tipo - além de ficar extremamente duro, porque em janeiro ninguém estuda, portanto ninguém me paga, é um inferno.
Então tem esse xarope de guaco. Docinho gostosinho, dá vontade de entornar a porcaria do frasco como se fosse o gin tônica dos meus velhos tempos de Heleninha Roithmann (aliás, que decadência: das bebidas tomadas sob o estrobo para bebidas tomadas vestindo pantufas, onde vou assim?!). Hoje de manhã, depois do meu tragozinho matinal, deixei o xarope no armário, pois não queria atrair os olhares piedosos das minhas fella teachers no trabalho. Quando voltei, doido por uma dose, ele estava cheio de formigas. Lavei o frasco, tentei ao máximo tirá-las de lá, e lá pelas tantas achei que já dava para me servir. Tomei meu copinho de plástico cheio (dobro da dose recomendada) e depois, para evitar nova invasão, coloquei o xarope dentro de uma tigela pequena com água - aquele esquema para proteger o mel desses bichos. Pus o conjunto no mesmo lugar do armário, perto das formigas perplexas que ainda não entendiam onde havia ido a fonte de doce.
Um pouco depois, voltei ao mesmo armário para pegar alguma coisa que agora não vem nem ao caso nem à memória, e vi que no frasco ainda andavam umas poucas sobreviventes do banho. Elas iam até a borda da água e voltavam várias vezes, sem entender bem o que havia acontecido, e talvez até sem saber que estavam fodidas: iam morrer ali mesmo ou de tédio, ou do esforço de subir e descer ou de uma espécie de diabetes formigal fulminante, de tanto tomar xarope (eu faria isso no lugar delas).
Mas o que mais me impressionou (sim, minha vida anda meio sem aventuras, preciso arrumar com o que me espantar para evitar a monotonia do 6.03 + 3.60 and back) foi a atitude das outras, as que ficaram do lado de fora. Elas não moveram uma palha - e eu sei que elas podem, pois formigas podem carregar não sei quantas vezes seu próprio peso - para ajudar as pobrezinhas que ficaram lá na ilha. Nem sequer um protesto à beira do lago de água e plástico que se formou sem explicação, uma mobilização, uma passeata, uma campanha para salvar as coitadas ilhadas. Elas debandaram. Estavam saindo de lá pouco a pouco, e eu só não vi quanto tempo essa debandada conformista levou porque me cansei de esperar pelo seu fim. Nada. Nem um grito de horror. Nem uma lágrima de formiga. Porra nenhuma. Só o desespero calmo e burro das que ficaram no frasco. E eu salvei as formiguinhas? Eu não! Esses animais idiotas que se resolvam e se matem por conta própria!
Escrito por Hugo Lorenzetti às 00h41
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Escrito por Hugo Lorenzetti às 23h29
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