Negativo do Vazio
vontade de escrever e colocar coisas aqui. mais uma vez fiquei acordado até tarde, e isso é uma merda. e a impressão de que não há mesmo muito o que dizer, e que quando a gente tem certeza de que não tem realmente nada para falar para ninguém a não ser maus conselhos, a gente prepara um projeto de mestrado. e faz mestrado, e doutorado, e pós-doutorado, e livre-docência e titularidade e Ph Divindade. e percebe que ninguém lê teses porque as teses não dizem nada porque os que as criaram não tinham nada para dizer.
e aí tem essa Rachel Whiteread. eu queria fazer esculturas em parte por causa dela e em parte por causa de outro de quem não vou falar porque vou falar dela. houve uma exposição dela no mam, junto com o Picasso, se não me engano. o Picasso na Oca foi terrível. mil criancinhas correndo pra lá e pra cá e entrando bem na sua frente quando você tentava ver alguma coisa, e querendo pegar nas esculturas e nas paredes, e nas pinturas, e nos desenhos, e nos extintores de incêndio. a Oca foi feita para elas despencarem da rampa enquanto correm, mas elas não despencam (não que eu saiba). aí tinha essa paz ali pertinho, esse monte de negativos do vazio.
o catálogo está aqui na minha frente. tem uma citação do Francis Ponge. Francis Ponge Bob Squarepants. se não sabe o que dizer, então deixa quem escreveu um poema sobre OUTRA COISA sossegado. mas tá aí a essência das dissertações e das teses: controlvê controlcê controlvê controlcê. não se esquecendo de que “indubitavelmente” e “henceforth” são conectivos muito sofistiquês, ainda que de línguas diferentes, e servem para ligar recortes.
reclamações à parte.
havia essa estante de livros (vou tentar achara foto), uma obra chamada Black Books. ela fez um molde a partir de uma fileira de livros, criando seu negativo, e desse negativo fez um novo positivo com plástico e aço, virados de costas. ou seja, em português: não se vêem seus títulos nem nada. preto. havia também uma sem título que era o negativo de três prateleiras, ou seja, de livros que estavam lá, estantes de com os fantasmas. eu faço de conta que ela se queixa do que eu me queixo e fico feliz. e tranqüilo. ela deve ter estragado um monte de livros para fazer isso. bem feito. ficou muito mais bonito.
 Black Books, 1996/97 plástico pigmantado de preto e aço
quando a bomba explodiu, as pessoas evaporaram e deixaram seus contornos plasmados em muros em Hiroxima. eu ri de desespero nessa aula e acho que detestei o século XX então. principalmente porque eu ri, e em vez de desconsolado, nervoso ou histérico meu riso pareceu sádico. e às vezes eu queria comer gesso odontológico e depois ser descascado quando me lembro que não tenho coração.
 Untitled (Pink Torso), 1991, gesso odontológico rosa
Escrito por Hugo Lorenzetti às 00h10
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Por que não ler certas coisas
I. As aventuras de Paulo, o Coelho
Juro que não vou chover no molhado e dizer o que todo mundo diz por aí. Acho importante perder um pouco de tempo com relação ao maior e$critor brasileiro, senão fica parecendo papo de invejoso - como acusam os seus defensores. A idéia de pensar nisso veio de um blog de um escritor contemporâneo (nosso), o Marcelino Freire - não meu favorito dos atuais, mas um escritor bacana, pelo menos nas propostas.
A história inteira: saiu uma matéria na Veja (eu não tinha lido até então, não leio Veja, tenho mais o que fazer nessa vida e tenho ainda por cima um desapreço odioso por Diogo Mainardi, o maior armchair critic do Brasil) descendo o sarrafo no MLU, o Movimento Literatura Urgente, que recentemente veio pedir fomento para a produção literária ao ministro maconheiro Gilberto Gil. A idéia não é ruim em si, há problemas, claro, mas há abertura para debate no MLU, constituído por quase todo mundo que escreve e publica regularmente. O que acontece é que a Veja, através de seu zumbi Jerônimo Teixeira (zumbis, não jornalistas - toda unanimidade é burra e a Veja é prova disso) desceu o sarrafo em tudo, dizendo que os caras propõem um “trem da alegria letrado” e se esquece do patrocínio de xis milhões que o governo deu para O fantasma da ópera, que além de ser um musical de extremo mau gosto, sobreviveria - como sobrevive, com caravanas do Braisl inteiro todos os dias chegando e gastando para ver a coisa - com suas próprias pernas. Bem, talvez o esquecimento se deva ao fato de a Editora Abril ser longe do Teatro Abril.
De qualquer modo, não é esse o ponto. mais informações basta usar o Oráculo Google com esses nomes acima. A resposta de Marcelino a Jerônimo é muito fina, vale a pena catar no Google.
O ponto é o seguinte: nos paus que rolaram nos comentários-fórum no blog de Marcelino, alguém que - caham - pesquisa Paulo, o Coelho, pôs a figura no meio. E como é muito feio ser intelectual e não gostar do Mago, todo mundo desceu lenha idem e assim foi. E é por isso que não gosto de discutir literatura: ganha quem escreve “melhor” com mais subordinadas, proparoxítonas e “foras” nos outros. Mas de qualquer modo, eu li livros do Mago e não os recomendo, e vou dizer por quê. Em primeiro lugar há os defeitos narratológicos: é muito difícil pensar em narração para o mundo contemporâneo sem que se pense que os roteiros devem propor jogos. Narrativas interessantes podem até ser óbvias, a mocinha pode se casar com o mocinho no final sem problemas , contanto que a gente esteja de algum modo esperando o contrário. Pistas nem sempre devem ter recompensas, ou as recompensas podem ser frustrantes em certo sentido, fazendo com que a narrativa como um todo não o seja. O que não dá, sem que se seja leitura fácil e sem densidade de roteiro, é a gente saber que Verônica não vai morrer desde a segunda página de Verônica decide morrer. Paulo Coelho recorre quase sempre ao lugar comum do desorientado que, por força maior, acaba se reorientando. Ou do perdido que acaba encontrando. Ou do desenganado que acaba enganando. É claro que a prosa ficcional não vive sem lugares comuns, mas ao não propor nada que os ponha em questão, não se narra com originalidade. E em segundo lugar, acho que literatura não é só linguagem, mas é linguagem também. Se for só pra contar história sem ver direito o que se vai fazer com as vírgulas (caso dos primeiros livros) ou para contar cheio de proparoxítonos e subordinadas (caso dos mais recentes) então pra que contar?
Informação final: li cinco livros de Paulo, o Coelho. Tinha 11 ou 12 quando saiu O Alquimista e já na época fiquei achando que havia algo de esquisito ali... Mas tinha gostado, claro. Anos mais tarde reli. E de vez em quando leio, só pra saber o que está acontecendo, pelo menos até a página 20 (ponto em que desisti de Onze minutos). Acho que quem quer escrever e publicar etc tem que ler até bula de remédio. Tudo é aprendizado.
II. Dan Brown e seus códigos.
Tentei ler O código Da Vinci em português e desisti na página 20 (essa é minha página-limite, se eu não fui comprado até lá, dificilmente serie comprado depois). A tradução é horripilante. Sou muito sensível a traduções ruins e tendo a desistir - só leio quando a obra tem conteúdo suficientemente importante para eu achar que é melhor levar assim mesmo que me arriscar a não achar/ não entender o original. Toda vez que vejo um Present Perfect traduzido como “tenho sido”, “tenho estado” fico na angústia. Como tenho amigos muito chiques, consegui uma cópia em inglês. Um livro de mistérios, enigmas e coisas policiais só é bom se ele me faz atrasar reltório de pesquisa. Eu esqueci de ler o Dan Brown até o fim... Fui até mais ou menos a página 100 e devolvi dizendo “uau, muito louco”. É o que você precisa dizer depois desses livros para não ter o saco enchido. A resposta será “é, uau, muito louco”. Para quem estudou um pouco mais de História do que aquilo que se ensina no colégio, pelo menos até a página 100, nenhuma novidade, só a ufologia de sempre, as mesmas criptografias e conexões e conspirações que aparecem desde sempre em tudo. E eu sou velho pra isso, muito velho. E como sou velho pra caralho, conheci Leonardo da Vinci pessoalmente e sei que é mentira
Escrito por Hugo Lorenzetti às 22h30
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