Carvão
É meu material favorito. Você o encosta no papel e sai aquela massa escura, aquela mancha que você precisa tentar conter, tentar limitar na área do desenho - ou daquilo que será o desenho, uma vez que quando faço os meus, em geral começo pela mancha, e a linha sai dela, o que torna tudo mais difícil de limitar. O carvão cria suas próprias texturas e é preciso ter cuidado na hora de consertá-las (e concertá-las ao resto do projeto). Um pouco mais e você tem uma superfície negra plana, absolutamente reta. Que pode ser boa, claro. As pêras adoram carvão. Faço primeiro a curvinha de cima, a cintura. Tem uma sombra ali. Depois o desenho vai pedindo aquilo que quer. E tem mais: nem sempre adianta passar o fixador no desenho de carvão - ele continua saindo e faz uma sujeira enorme. O carvão aguado é muito bonito, quase tanto quanto o pastel seco aguado - só que bem mais rústico, muito menos delicado. A mancha cresce ainda mais. A aguada - seja ela do que for - ainda é mais instigante que o carvão. Só que ainda não posso me arriscar, preciso de materiais mansinhos, calminhos.
Outro dia fiz uma natureza morta com grafite e carvão. Foi meu melhor trabalho até agora esse ano - consegui combinar bem os materiais e criei um ritmo interessante no papel. O motivo: pêras e balas. As balas têm muitas linhas: uma só pode virar muitas se o ponto de vista for mudado - ou simplesmente a bala virada, o que é mais fácil. um dos lado dela pode ser feito com o preto achatado do carvão, mas as pontas têm que ser criadas com cuidado, senão ela vira um borrão. Eu até o escanearia, mas ele é enorme.
Ainda que eu adore desenhar os objetos, queria aprender a desenhar pessoas, a ver as linhas que elas escondem e mostram de novo a cada gesto e movimento que fazem. Quando eu crescer, quero ser que nem a Betty Goodwin: manchas e corpos e um misterioso megafone em alguns desenhos. Muita matéria, desenhos enormes com carvão e outros materiais selvagens.
 a mão avança alguns centímetros, e tão logo essa distância tenha sido coberta vem a coragem e o entendimento para prosseguir um pouco mais
Escrito por Hugo Lorenzetti às 00h31
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