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Still-life


Georges Braque, Le jour, óleo sobre tela, 1929

Na minha prova do CPE (e sim, passei, com grade A, eu sou foda) havia um texto que dizia que as artes plásticas desafiam a decadência daquilo que trazem expresso, e o foco era nas naturezas-mortas. As naturezas-mortas desafiam a decadência e o desaparecimento dos objetos, e por isso são tão capazes de provocar impacto naqueles que as vêem. Achei a idéia esquisita quando li aquilo lá. Desde pequeno tenho antipatia por esse gênero de pintura: eu achava que haveria coisas podres pintadas, já que a natureza havia morrido. Fiquei até meus, sei lá, dez anos achando que nunca havia visto um quadro de natureza morta, exceto talvez por alguma das carniças de Velásquez vistas em livros, claro.

A antipatia veio até recentemente. Ano passado no curso de desenho, a professora Lúcia trouxe um mamão para modelo de uma aula de nanquim e de manchas. Lembro que adorei fazer aquilo, que meus desenhos da fruta foram os melhores da época (nossa, vou ter que me convencer de que não fiz nenhum trocadilho idiota ao usar essa palavra “época”). Achei que tinha gostado de fazer manchas de nanquim, pois foi a minha primeira vez com ela - e acabei usando as minhas gatas como modelos para meus desenhos manchados seguintes, sem ter o mesmo sucesso que tive com o mamão formosa cortado.

Nesse semestre, de novo as frutas apareceram - só agora no finalzinho do período. Só que foi em uma aula de linha e massa. Estou tentando trabalhar com carvão sobre papel vergê - ou layout 180g -, e as maçãs que serviram de modelo ficaram muito legais nos meus trabalhos. Depois da aula passei no Empório Bella Fruta (um SIM em Campinas no meio de tantos nãos) para comprar frutas para fazer naturezas mortas. É engraçado fazer isso, porque o que a gente procura nessas horas é uma certa fotogenia dos objetos e não sua “cara boa” para consumo. Peguei pêras uma a uma e fiquei namorando as coitadas até escolher uma. O mesmo com as mexericas, as maçãs argentinas (boas de desenhar mas escrotamente farinhentas) e as berinjelas. Escolhi uma de cada e fui mais cedo para o trabalho para ter tempo de desenhar um pouquinho. E descobri que adoro fazer naturezas-mortas, ainda mais sabendo que as frutas não precisam posar em cima de uma travessa-abajur com jasmins e coisas do tipo - basta desenhá-las de algum jeito. Fiz algumas repetições rítmicas de maçãs no mesmo papel - que eram a mesma maçã, aliás -, fiz a mesma berinjela em dois ângulos diferentes e desenhei umas balas (depois da Arte Pop a natureza-morta tolera certos abusos), enfim, me diverti bastante.

E aí tem essas coisas que as frutas escondem. Desenhar pêras, por exemplo, é um negócio muito legal, porque elas têm umas sombras interessantes, que dão manchas e linhas bonitas. Morangos só têm graça em grupo - dá para montar labirintos de pontos , linhas e manchas e as berinjelas refletem as coisas ao redor em sua pele, criando desenhos que não se parecem com nada do que está em volta, e por não serem rugosas ou angulosas são superdifíceis de desenhar sem que se pareçam abobrinhas. Maçãs são riscadas e escondem sombras. Kiwis têm vida interior, vida muito intensa, e mexericas, bem, mexericas são mexericas, deixa pra lá (se bem que dão muito material quando estão abertas.

Não são só as frutas: balas são imprevisíveis e se mostram oferecendo muitas, infinitas linhas. Xícaras sujas de café também, bem como copinhos de plástico. De um modo geral, os objetos são amáveis. Eles ficam paradinhos produzindo sombras em si mesmos, sendo simpáticos ao esforço do lápis, ao contrário dos seres humanos, que se mexem e atrapalham tudo. Os objetos são dóceis e interessantes. São organizados, sistemáticos, obedecem direitinho às leis da física, não dão trabalho. Os objetos parecem puros e inocentes, sem culpa de terem sido feitos como são - eles estão ali como verdades agradáveis, como promessas de que pode existir alguma calma na vida.

Natureza-morta em inglês é still-life, vida-parada. Se elas tivessem esse nome talvez eu tivesse sido menos rebelde e as tivesse curtido desde sempre. Fazer naturezas-mortas, agora concordo com o texto, é congelar momentos - momentos de desenho. No ato de construí-las, ficam ali parados momentos agradáveis de vida: a fruta ou o objeto fica preservado de sua demorada corrupção - e um momento menos corrupto daquele que desenha - e que se corrompe numa velocidade assustadora -  fica ali junto. A vida pára de se transformar e de doer num instante de felicidade, de contemplação, e o desenho fica ali como lembrança, reminiscência de uma época mais feliz e ordenada. Vida ainda.



Escrito por Hugo Lorenzetti às 02h02
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