Não era bem isso o que eu pretendia dizer quando falava mal da crítica marxista, mas serve. O musical The sound of music, conhecido no Brasil como A noviça rebelde, despertou a fúria dos críticos na época em que foi lançado. Não tenho muita certeza se foi por ocasião do musical da Broadway (1959) ou do filme (1965), mas acho que tem mais a ver com o contexto “revolucionário” de meados dos anos 60, que uma crítica estadunidense declarou que The sound of music não é um filme bom porque mente. Aqui entra de novo aquele meu questionamento de posts atrás: a arte tem que dizer verdades? Ou melhor: as verdades artísticas correspondem às verdades do devoir être marxista?
Pode parecer provocação, mas é quase epistemologia (seria se eu usasse mais proparoxítonas no texto): os marxistas não primam por sua imaginação ou inventividade, e certamente vão descer o sarrafo em qualquer peça fantasiosa que não termine com o sangramento do opressor e a posse do poder pelos mais fracos. É certo que muita coisa interessante foi produzida por artistas que observaram o figurino marxista, mas a recusa do poético sob a alegação de que ele pode provocar desvios indesejáveis - algo que lembra o ódio de Platão pela poesia - essa recusa pode levar a análises reduzidas, míopes, capazes de transformar inocentes “histórias sem fim” em monstruosidades maléficas.
Não estou aqui para defender que The sound of music seja um grande filme. Há defeitos, sim. Por exemplo, a incompatibilidade entre os movimentos de Maria (Julie Andrews, duh!) e das crianças e o que acontece com as marionetes que elas manipulam não deixa de me incomodar, e algumas inversões na ordem das músicas, como o que acontece com My favourite things, que originalmente era cantada na abadia por Maria e pelas freiras (a música da tempestade era The little goatherd) geraram deslocamentos de sentido e criaram cenas absolutamente despropositadas. Mas aqui temos problemas de linguagem, não questões éticas discutidas a partir de um conjunto de normas de que o filme não compartilha.
Há ocultamentos, sim; os críticos não estavam loucos, absolutamente. O irmão de uma amiga trabalhou no Von Trapp Inn (acho que é esse o nome), estabelecimento administrado por uma das crianças Von Trapp, e ele disse que a história original era muito menos interessante, muito menos novelesca, e que o que havia de comum entre a família e o musical era o fato de que eles eram obrigados a ouvir a trilha de The sound of music o dia inteiro, todos os dias*. Claro que infidelidade do “baseado em fatos reais” em relação aos fatos reais é de se esperar - não é esse o ocultamento em questão, estou só desenvolvendo anedota aqui.
Acredito que quem critique a obra dê falta de sofrimento, da dor que as histórias sobre nazistas trazem invariavelmente. De fato, escolheu-se um tom de amenidade que faria qualquer um que tenha visto de perto ou de longe o Nazismo se desenrolando arrepiar. Entendo que há uma grande diferença entre cantar My favourite things para esquecer uma tempestade é muito diferente de cantar a mesma coisa para esquecer um campo de concentração nazista, mas não creio que isso seja suficiente para desmerecer o filme ou o musical por completo. Há quem escolha isso, quem adie o sofrimento, mas ele está lá. Se é possível perceber o ocultamento é porque é possível perceber a coisa escondida. A música de abertura, que inclusive dá título para o musical, pode ajudar o olhar sobre a obra, basta olhar sua letra. A música está nas colinas e seu poder é imenso, mesmo que ela sirva como “ópio”. Esse é o assunto do filme, que infelizmente, ao menos para sua fortuna crítica, escolheu o controverso período nazista como tópica.
Finalmente, eu me lembro da vez em que o pai da mesma amiga cujo irmão foi empregado dos Von Trapp sofreu algo no coração e foi internado. Fiquei em casa cuidando dela e para que ela conseguisse relaxar e dormir, assistimos ao musical. A dor inevitável teve o seu Tylenol ali, e depois do filme ela realmente dormiu. Analgésicos não curam doenças, mas é bom poder contar com eles de vez em quando - sabendo-se, claro, a grande diferença entre uma aspirina e uma sessão de quimioterapia.
*Nota de rodapé: Possível visão do inferno. Para mim, ouvir essa trilha sonora todos os dias o dia inteiro parece realmente uma visão do inferno. Eu tenho a trilha da Broadway e escuto de vez em quando - uma ou duas vezes em uma mesma semana já basta para esquecer o CD por algum tempo. Minha visão pessoal de inferno é um dueto entre Richard Clayderman e Kenny G com Ray Conniff nos intervalos num teatro sem portas e sem banheiro. E claro, todos os artistas com amplificadores e numa sala com o tal do Incredible Surround Sound da Philips.
Escrito por Hugo Lorenzetti às 00h54
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