processo: gata - desenho incompleto
falta mais uma "camada". acabei usando camadas - os dois borrifos de fixador criaram superfícies. lá na microcoisa que a gente não vê, são três desenhos, um sobre o outro. o bigode está esfumado, alguma coisa aconteceu - não me lembro de ter esfumado, já que não é a minha técnica favorita. uma camada mais e algum equilíbrio, um pouco mais de desenho na área branca. ainda é um gato, mas se eu precisar criar a quinta camada, não o será mais. estou a ponto de estragar um desenho porque acho que ele não está pronto...
e o acaso é o que as artes plásticas têm que a literatura e seu excesso de cérebro nunca terá. consegui explicar uma coisa que levei tanto tempo remoendo.
o acaso pode matar.

gata. pastel seco, carvão, grafite e gioconda sobre papel. não é a mesma coisa digitalizado...
Escrito por Hugo Lorenzetti às 12h11
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A crítica de arte de orientação marxista é ma coisa que de vez em quando me irrita. Aliás, o marxismo me irrita quando os marxistas parecem pertencer à Igreja Universal do Reino da Mais-Valia, ou do Reino Revolucionário para ficar mais coerente, já que Mais-Valia é uma coisa ruim, muito ruim. Mas continuando os sintagmas da primeira frase, os marxistas muitas vezes não entendem bem para que servem as artes de um modo geral e exigem certos compromissos que não podem ser assumidos por parte (grande ou pequena, tanto faz) dos artistas, ou que eles simplesmente não desejam assumir. Em certo sentido, esses críticos trazem para sua prática alguns resquícios platonistas (de Platão mesmo, e não aquela coisa de amor platônico que os mortais têm pela Angelina Très Jolie ou pelo Orlando Bloooom!): nada que aparentemente atrapalhe ou confunda um certo dever ser social pode ser considerado desejável, bom ou minimamente aceitável. Existe esse dever ser, esse ideal (daí Platão) que não passa de projeto abstrato, no qual se inclui um certo compromisso com questões reais - em geral de uma realidade podre e desigual - que deve ser incluído no programa estético de todo e qualquer artista se ele não quiser ser “burguês” ou uma espécie de opiáceo para as elites. Esses críticos, enfim, são os que pedem “verdade” onde deveria haver “verossimilhança” ou simplesmente nada disso. É o tipo de análise que vai dizer: “como é que o roteirista, diretor, quem quer que seja pode criar um universo feliz em que as coisas dão certo em plena crise dos anos 80?”, ou para me referir a construções teóricas e críticas menos “de poltrona”, um crítico que não entende como o artista brasileiro pode não se dedicar exclusivamente às causas dos pobres e frascos de comprimidos.
É certo que há muita obra construída segundo esses paradigmas que realmente vale a pena, e aqui me refiro muito mais à produção de um Glauber Rocha ou um Ferreira Gullar e até mesmo um Candeias e muito menos às coisas que saíam dos CPCs (dos quais Gullar participou, claro, sei disso), nas quais se vê que a preocupação didática - o iluminar a massa ignara - chega até mesmo a atrapalhar a elaboração do produto de linguagem, linguagem aqui em sentido amplo, seja ela a das palavras ou a visual. Muitas vezes, e vê-se isso mesmo em trabalhos de hoje em dia com núcleos populares de produção artística, o esquemão “do povo para o povo” não levava em consideração que, ainda que a finalidade fosse democratizar os meios de produção intelectual, ao levar às camadas desfavorecidas a possibilidade de se produzir cinema, teatro, artes plásticas ou literatura o que se pretendia era dar acesso a uma classe às práticas sociais de outra, a média (ou “burguesa”, para usar o latinório comunista). Ainda que essas iniciativas tenham compreendido o vínculo entre “burguesia” e expressão artística, a recusa de se aprofundar no entendimento das práticas sociais do domínio artístico simplesmente porque ele é "burguês" rendeu a datação e o fracasso dos projetos populares. Aqui Platão de novo: o medo de que a culpa dos males do mundo - mundo tão distante de seu devoir - esteja na poesia e não nas práticas que a envolvem faz o marxista não promover nem beleza nem revolução.
...
MERDA! Esqueci sobre o que eu estava falando!
Escrito por Hugo Lorenzetti às 00h30
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